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Expressionismo de Kirchner – Transição Gráfica na Xilogravura Expressiva

imagesErnst Ludwig Kirchner, Xilogravura

Nos corpos inconfundíveis das mulheres nuas de Kirchner ou até nos seus retratos gravados distorcidamente, como se o tempo jamais parasse, existe uma força que ali habita. Essa força que cito, a partir da imagem acima, onde a figura gravada tem seu contraste fortíssimo em preto e branco. Nessa imagem em especial observo sua insistência na vaidade enquanto mulher, quando a figura representada olha fixamente no espelho que se encontra ao lado direito, no lado esquerdo a mão põe-se a ajeitar o cabelo para melhor aparência. Ou seja, a aceitação social se torna de maior acuidade ao invés do crescimento intelectual, o autoconhecimento é vetado. Vejo essa imagem como patética, pois o engano da personagem em lidar com um estereótipo quando se propõem em seguir uma tendência, se limita a uma condição de mulher em ter o corpo belo e limitações de pensamento. Na segunda metade do século XIX, o mundo vivia seu ápice de acontecimentos de crescimento monetário e tecnológico, onde o homem se colocou num pedestal e se conformou em ser o que achava ser seu ápice. A elite intelectual se posicionou em críticas a essa situação de acomodação, a qual seria inadmissível aos olhos de escritores e artistas. Logo imagens gráficas de análise social surgiram e em seguida na primeira metade do século XX, durante a Primeira Grande Guerra que influenciou a obra gráfica de Kirchner mais fortemente. As mortes em massa, a privacidade violada, entre outras barbaridades que a guerra proporcionou para a decadência humana, vieram a ser de utilidade para o artista. Um bom exemplo para ter essa ideia de privação dos direitos humanos é o livro O Processo do escritor Franz Kafka, que nos remete a esse período abordado até então. Onde o personagem intitulado Josef K, sem motivos explicáveis, é preso em sua própria casa e sujeito a um longo interrogatório e logo a um incompreensível processo por um crime não revelado. Ele é privado de muitos direitos e da sua própria privacidade do ir e vir. A história se desenrola em muitos caminhos que sempre levam Josef K ao mesmo estado, quase de loucura. O equívoco dos sonhos tomados do peculiar universo kafkiano e as situações de contrassenso existencial chegam a limites insuspeitados. O clima de pesadelo misturado com fatos corriqueiros compõem uma transação em que a irrealidade beira a loucura e a desordem beira o caos emocional. Assim Kirchner discorreu em suas obras, primeiramente sobre o mundo em torno do artista, ou seja, suas angústias diante do mundo e suas visões sobre as conformidades que atingiam o homem. E após a eclosão da Primeira Grande Guerra, Kirchner se pôs em mostrar nos seus trabalhos, suas perturbações, assim como, por exemplo, utilizando-se da destruição da figura humana, distorcendo-a. Assim, para declarar que o homem em guerra, desfragmentava o seu próprio ser ao atingir ferozmente outro homem. A estética da imagem distorcida tem como função fundamental, no expressionismo, atingir os sentidos dos expectadores e fazê-los perceberem o homem como destruidor de si mesmo. Kirchner mostra uma preferência ao sombrio, ao trágico, às figuras contorcidas nas mais agonizantes dores do estar consciente dos atos antihumanos da guerra e do sobreviver alienado, com imagens que perturbam o ser humano. Seria para minha percepção, uma disseminação de um acontecimento trágico na história da humanidade, uma memória de medo e solidão. Em “Assim Falou Zaratustra” Nietzsche descreve os fundamentos do pensamento conformista da época, o qual antecede o período entre guerras. Observo que o autor toma como rédeas a religião e a política, ao falar do homem limitado. Com base para dizer que a religião e a política, se mostram por meio de máscaras, as quais escondem uma realidade inquietante e ameaçadora para os homens do período citado. Cuja ideia do futuro é difícil de suportar, na qual os limites e imposições de uma razão, que proíbem a vida, permanecem estranhos a ela mesma. Onde as semelhanças de dissimulações confundem o homem e fazem-no ser dominado. E o ser pode e deve libertar-se de uma razão controlada e produzida. Esse preconceber que coloco se dá em um condicionamento que o homem se inclui para viver em sociedade, às vezes tornando-se um ser diferente do que poderia ser, enquanto condicionado à prisão da razão manipulada. Mas para Kant, no livro Crítica da razão pura, em que a razão que se movimenta, no seu ambiente e seus limites faz o homem compreender-se a si mesmo e o dispõe para a libertação do pensamento. No entanto Nietzsche trata de uma libertação escravizada pela razão, ou seja, essa razão trás os deveres coletivos. Sendo assim, o homem se detém a ser ele mesmo, ao ter deveres que o fazem homem. Pois seria uma razão produzida doutro ser, um dominador, que cria a opressão encarcerando a vida. A melhor forma para definir o pessimismo tratado na minha pesquisa seria proferir poemas como “L’Albatros (O Albatroz)”, “Une Charogne (Uma Carniça)”, “A Une Passante (A Uma Passante)” ou “L’Âme Du Vin (A Alma do Vinho)” do livro “Flores do Mal” de Baudelaire. Pois ele consegue atingir o mais obscuro sentimento do pessimismo diante da vida. Esses poemas escritos em forma descritiva e interpretativa são subjetivos e indiretos. Entretanto a imagem que os poemas trazem, é possível ver o homem de frente a um espelho, e o grande vazio que constrói nos passos da razão escravizada.  O poema O Albatroz, por exemplo, trás para mim um referencial muito grande, por se tratar de uma comparação da ave marítima o Albatroz com a imagem do poeta. Esse comparativo se dá quando Baudelaire descreve a ave como o rei dos céus pelas suas grandes asas e voo de grande nobreza. Além de por o comparativo quando o Albatroz esta no cais, andando de maneira tosca, como o poeta em meio aos homens. No poema a ave é motivo de risos por pescadores, pela sua estranheza no caminhar, diferente de quando está nos seus vôos grandiosos. E o autor decorre, o personagem secundário o poeta como um ser igualitário ao Albatroz, que se torna majestoso nos céus. Assim a comparação com o poeta, se dá quando esta entre os homens e se torna motivo de risos por não ter outra função senão as palavras. Quando para a época outras atividades voltadas para a força do homem, seriam consideradas 18 mais dignas que a de ser poeta. Entretanto as palavras quando sentidas de maneira que se tornam tangíveis a leitores, tornam o poeta sublime. Esse poema remete para as questões que Kirchner transpira em suas obras xilográficas, observo críticas de mesma potência, como na imagem abaixo de título Fehmarn Mädchen (Meninas de Fehmarn). A personagem do primeiro plano lida com a aparência, de forma que se faz entender como a vaidade, e logo acusa a falta da mesma pela outra personagem, que se esconde no plano de fundo. Torna tudo possível e de importância vital, esse respiro de vaidade. Tomando em conta a ignorar o outro, ou rir da falta de feições do próximo.

images (1)Kirchner

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