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No Pessimismo – Traços de linhas básicas

000287_GGoeldi, Pescadores, Xilogravura

“A arte não produz o visível, mas torna visível”
Uma imagem que comove a alma, que enternece o ser, seria tocante ao sentimento do homem do século XX. O ser moderno é triste, inadequado ao lugar que vive ou impróprio à própria vida. Onde um pedido de desculpas ou de culpa para um próprio existir de si mesmo clama por um grito. Um pedido de socorro desse homem moderno viria devido a não conhecer a imensa solidão que nasce dentro do seu ser. A sensível visão é presente nas gravuras do artista Oswaldo Goeldi. Na imagem intitulada Pescadores, a minha descrição ao visualizar esse tema tão decorrente na obra de Goeldi, vejo que trata de perdição, ou seja, os dois personagens se encontram em direção ao horizonte, junto a uma tempestade. Tornando essa imagem uma revelação da sua identidade de solitário, o artista se coloca sempre à deriva, não se sabe se estão em sonho ou em uma inquietante realidade íntima. A xilogravura é válida quando produzida de maneira visceral, a tentativa de exprimir a vida graficamente na madeira se torna a própria alma. Um incessante devaneio de verdades e perguntas, ou seja, a procura de um retrato do mundo dentro do artista. É frustrante o comprometimento do ato de conhecer um “Eu” interior, e ao mesmo tempo, o comportamento humano em relação aos sentimentos obscurecidos pelo tempo e pela razão coletiva. A obra Urubus é uma síntese dessa procura interna, onde essas aves carniceiras se tornam a insatisfação do que o artista revela na falta do conhecimento interno. Assim quando ele coloca essas aves em relação à vida do artista, seu significado se torna mais forte, pela falta de veracidade com seu interior corroído pelo tempo.

000404_GGoeldi, Urubus, Xilogravura
“Sobre a obra – Agora, o artista já manipula os materiais de maneira sábia: nenhum embaraço no manejo das goivas, na quantidade da tinta, tudo está em equilíbrio. A intensidade com que imprime o preto no papel, profundamente, acentua a morbidez e o pessimismo da imagem.”
Goeldi o artista dos caminhos sombrios, vivenciou guerras assim como Kirchner. Portanto, após esses acontecimentos o artista brasileiro tem como referência a tragédia humana. As obras xilográficas de Goeldi tornam-se impressionantes, pela fragilidade e pelo seu existencial de caráter desolador. Nas imagens, apesar de serem limitadas no seu tamanho, temos a impressão delas nos engolirem de forma que revelam sua importância quando falamos em liberdade. Os objetos que o artista Goeldi utiliza, como guarda-chuvas, latas vazias, casarios abandonados, poste de luz, são nada menos que símbolos que incitam o abandono, estão ali pedindo atenção. Ou seja, esses objetos inanimados se revelam seres que por sua natureza se tornam vazios, entretanto sua existência tem valor simbólico na gravura. A imensa nitidez que o artista aborda quando trata da importância das coisas e seus valores, assim como o homem solitário quando liberto do cárcere da razão na busca 10Cavalcanti, Newton. “Oswaldo Goeldi”. Letras e Artes, Ano V, nº 13, Rio de Janeiro Junho de 1991, de um eu íntimo do artista criador. Traz para mim uma identificação com meu trabalho que tomei continuidade no início de 2012, com a xilogravura. Diferente de quando procurava uma resposta da minha angústia do aprisionamento do homem na razão coletiva e o homem descriminante, em 2011. Aqui me coloco na mesma situação do artista Goeldi, o que é para mim uma nova procura para um novo fim, que não seja a coletividade de um todo. Recomeçando de um princípio que me parece mais verdadeiro, pois se trata de um conhecimento que ainda não possuo, meu eu interior. Minhas gravuras são comparadas ao criar goeldiano, pois também parto de um sentimento pessoal. Uma criação que só poderia acontecer com a consciência da solidão do ser no mundo. A minha referência está, sim, em Goeldi, em alguns de seus questionamentos, não em suas inovações. Quando eu produzo uma série de gravuras o meu referente é a ideia de abandono, onde se torna uma memória. Essa memória eu trago à tona quando revelo minha dificuldade de relacionamento com outras pessoas, ou seja, minha entrega está no conhecimento do meu próprio ser, deixando de lado o envolvimento social. Pois na minha essência a pergunta quem sou eu está a frente de qualquer sentimento ao próximo, ou seja, se eu não sei quem sou ou da onde vim, essas pergunta travam minha existência com outro ser. Torno-me refém do medo e da insegurança, negando a minha curiosidade em relação ao outro e seus sentimentos. Quando sou conquistado pela solidão, a preferência está na noite, o meu trabalho acontece à noite. No silêncio das sombras abro as luzes que conduzem o olhar do expectador, que pretendo tornar visível a dor que à solidão traz para meu ser interior. Essa solidão, juntamente à noite, afirmo estar presente no meu trabalho, iniciado nessas novas questões em fevereiro de 2012. Produzo imagens neste período que mostram essa solidão de uma forma limpa e quase mórbida. Defino assim por elas apresentarem minha fraqueza de sentimento, quando o viver não satisfaz minhas vontades de quando me percebo. Como se essa percepção tratasse da falta de estímulos externos, que não me trazem um entusiasmo ou um significado. A xilogravura Esperar, feita de forma espontânea, se trata de uma identificação com Goeldi. Um homem sozinho, parado. diferente das representações de Goeldi, quando as figuras estão sempre em movimento. Essa imagem representa a minha situação quando solitário, pois se ajusta à minha autenticidade criadora e à procura por uma identidade.

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