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A solidão – Xilogravura

308102_207432182646065_2128471_nDiego A. Fonseca, Xilogravura, “Esperar”

Na imagem gravada, é evidente o veio da madeira, onde a mesma foi achada na forma que se encontra, ou seja, irregular. Portanto nesta gravura proponho outro fator da minha existência enquanto abandono. Eu pego a madeira quando abandonada, assim o achado da madeira torna possível a força do tema. A imagem gravada ligada ao desenho do veio da madeira é algo decorrente na obra de Goeldi. No meu caso, o uso da madeira, é quando eu a encontro abandonada e a ponho a meu favor, adequando em minhas imagens espontâneas os veios e os defeitos, tornando-os favoráveis para a imagem. Primeiramente penso na madeira como obra e depois a obra modificada, e então a xilogravura impressa liberta da madeira achada, logo descarto a primeira obra que é a madeira, onde ela agora se torna secundária, assim efêmera. Entretanto quando a imagem se torna expressamente evidenciada pelo olhar do expectador, ela por si só se torna a solidez da solidão que abordo quando gravada.

“O mundo de Goeldi é um mundo em suspensão, seus habitantes ainda despertam e se procuram, e se caminham para a morte o fazem solidariamente. Daí a calma de sua tristeza, onde abandono e comunhão convivem”

O casario, os cães, os vagabundos e os bêbados, as prostitutas, as janelas, os pescadores e as ruas, onde toda essa atmosfera sombria vive na obra de Goeldi e convive em harmonia, me levando a crer que elas por si só não sobreviveriam. Pois a unicidade esta nessa união dos seres, assim como no trecho acima descrito por Nuno Ramos. Goeldi nos leva ao seu drama da vida, quando mostra seus medos, suas angústias, desejos e procuras, vive em desunião com seu próprio se que não sabe por onde anda, por não concluir a busca que propõem o eu interior. Seus andarilhos estão sempre numa caminhada perpétua, nunca chegam em lugar nenhum a não ser aos mesmos becos escuros e umedecidos pelo tempo que se torna pesado a cada olhar do espectador.

46094Goeldi, Xilogravura, “Beco”

A imagem que deixa de ser real torna-se fraca e sem sentido, minha apropriação do mundo externo se torna nessa série inicial de 2012, uma representação sentimental da realidade urbana. Ou seja, me apoio no sentido de estar nessa representação chamada vida, um sentido de falta de coerência quando questiono o significado das situações existenciais. O artista Goeldi põe em suas xilogravuras a sua solidão, nunca encontrando uma saída dela, durante toda sua vida ele propõe um devaneio de perturbações e sonhos que o fazem se tornar um eterno solitário. Procurando uma resposta que talvez jamais encontrasse, a pergunta que o carregou junto as suas mais vivas gravuras até hoje, quem sou eu?

“Somente uma vez fiquei mudo: quando alguém me perguntou: ‘Quem és tu?’”

O que deixa de ser real numa representação é a falta de verdade nela, logo a representação só se torna sentimental e inerte a uma figuração da realidade externa quando essa realidade se torna algo íntimo e verdadeiro. Portanto nas gravuras de Goeldi vejo uma verdade que somente ele poderia ter, a representação de um mundo externo que influenciava seu mundo interno, assim fazendo-o ter essa necessidade de criar. O escrito Rainer Maria Rilke, no trecho abaixo citado, defende a criação como algo que deve nascer da vontade, um passo à frente da razão, uma vontade que vem do âmago de viver para criar. Para mim, Goeldi tinha essa necessidade, assim como Kirchner. O ato de exprimir uma realidade inquietante os fez eternos e essa necessidade torna essas imagens verdadeiras pela sua própria existência.

“Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. (…)Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças.’

No meu trabalho, com essa variante de pensamentos que mudam a cada série criada em xilogravura, vejo como algo sem retrocesso e de constante construção de uma identidade pertencente a mim e ao meu trabalho. Uma necessidade voluntária para a construção de uma personalidade xilográfica

 

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