Deixe um comentário

“A confusão é grande e a gravura não vai lucrar nada com isso”.

EN40Goeldi

ARTES PLÁSTICAS – Ferreira Gullar
Jornal do Brasil. 1957. 12. 1. Suplemento Dominical.

 A gravura está em foco não há dúvida nenhuma. Nos últimos anos, leigos e entendidos, encontram um ponto de acôrdo nesta frase: “A melhor coisa que se faz atualmente no Brasil é a gravura”. E, ou porque têm o mesmo ponto de vista ou porque essa opinião generalizada passou a influenciá-los, museus, associações de arte e críticos – e até mesmo embaixadores e adidos culturais – promoveram de Roma a Montevidéu, exposições de gravadores brasileiros, da velha-guarda e da nova geração. Em consequência disso ou por outra qualquer razão que no momento não cabe examinar, o interesse pela gravura cresceu a olhos vistos, e os ateliers e cursos de gravura encheram-se de gente môça disposta a gravar – a ser gravador. No mês de outubro último esse movimento assumiu um caráter de verdadeira “ocupação”, com quase todas as salas de exposição expondo gravura: no Museu de Arte Moderna, a retrospectiva de Lívio Abramo; no Ministério de Educação(em despedida ao salão que agora virou repartição burocrática), o Salão Para Todos de Gravura; na Escola de Belas-Artes, exposição e litografias do curso de Darel Valença; na Petite Galerie, um grupo de jovens…Como complemento, nas páginas de arte, nos noticiários, nas reuniões de artistas, nos cafés, o assunto era um só: gravura. 
 Mas uma mesa-redonda realizada no MAM em tôrno da retrospectiva de Lívio Abramo trouxe a furo problemas que, presentes nas conversas, ainda não tinham conhecido o debate a portas abertas. Esses problemas se relacionam os processos técnicos da gravura, os experimentos dos mais jovens, o valor da pesquisa na gravura brasileira e tantos outros que, somados, abrem a discussão sobre uma questão fundamental: o atual surto da gravura brasileira é fruto de uma necessidade profunda do meio e, por isso, positivo, ou nasce de um entusiasmo superficial que se alimenta de equívocos e facilidades? Eses mesmos problemas foram abordados há pouco por Mário Pedrosa em sua série de artigos sôbre a representação brasileira na IV Bienal de São Paulo.
 Foi pensando em promover o debate amplo e público em torno deles, que procuramos ouvir Oswaldo Goeldi, por todos reconhecido um mestre da gravura brasileira moderna. A publicação desta entrevista é, portanto, ao mesmo tempo, um convite aos gravadores, aos críticos e a todas as pessoas interessadas, para participarem da discussão, que pretendemos alta e leal. Está aberto o debate.

 – Fala-se atualmente muito(e bem) da gravura brasileira. Qual a sua opinião a respeito?
– Não há razão para achar que a gravura brasileira é a tal. É certo que há grande interesse em tôrno da gravura atualmente, muita gente gravando, muitas exposições, muitas experiências técnicas. Isso é uma vantagem, mas não vale por si só. É uma vantagem exterior: aplicando-se a crítica o resultado não é o mesmo. Na minha opinião, pode-se fazer uma bravata técnica, saindo  ou não das regras tradicionais, sem alcançar o nível da verdadeira gravura.

– A que atribui o surto da gravura brasileira?
– Ao fato de que a gravura exige um artesanato. Em geral, hoje, nas outras artes, o artesanato está sendo abandonado, enquanto na gravura ele continua a ser importante. Esse artesanato dá uma margem e apreciação e valorização. O jovem que quer fazer gravura sabe que tem que se apropriar dos meios técnicos para fazer juz ao título de gravador. É claro que a técnica somente não basta, mas o artista tem o orgulho do seu artesanato, ele tem necessidade de mostrar o seu conhecimento de “métier” – aquilo que ele conquistou.

– Esse orgulho é positivo?
– Até certo ponto. Os gravadores modernos, rompendo com o processo clássico de gravar – a pura técnica linear – com o rigor que impunha uma técnica única para cada trabalho, abriram um campo fecundo para a criação. Hoje, o gravador mistura quantos modos técnicos acha conveniente para a sua expressão: mistura água-forte com ponta-seca, usa “verniz-mou”, água-tinta, o diabo! Se por um lado, essa plena liberdade da aplicação técnica favoreceu  a  expressão, por outro lado criou o vício da técnica pela técnica.

Inovar por inovar

– Como assim?
– Fala-se muito hoje em inovações, em abrir caminhos, etc. Mas não se deve confundir experimentos técnicos com a verdadeira inovação. Todo artista realmente criador inova, e isso porque ele amplia seus meios na proporção de sua necessidade de expressão. Só essa inovação é legítima – a inovação que é ditada por uma necessidade interior. Inovar por inovar não tem sentido. Sei de artistas que passaram a vida toda inovando e não puderam fazer mais que “inovações”… Na verdade, muitas inovações em metal datam já de 1950. Por outro lado há exemplo de gravadores como Jacques Villon que, partindo da técnica tradicional, fizeram a passagem para uma maior síntese de formas, sem abandonar o verdadeiro sentido da gravura. Houve sempre na carreira de Villon um sábio equilíbrio entre técnica e criação e, gravando  sempre em mais profundidade, Villon é um verdadeiro clássico a gravura moderna.  Outro que se pode colocar ao lado dele é Lionel Feininger com suas xilos  suas águas-fortes. Mas ponha-se uma gravura de Friedlander ao lado de uma de Villon: a de Friedlander  some. Enfim, desde que artifícios e truques substituiram a gravura não há mais propósito para se dizer se a gravura é boa ou má.

– Esse sentido errado de inovação que você percebe hoje seria…
– O gravador não deve se limitar somente as inovações técnicas administradas pelo professor. A lição os mestres(que são artistas) é mais importante para a criação a gravura. Hoje você chega no atelier de um Friedlander em Paris: “Bom dia – lhe diz ele – toma eta chapa, comporte-se assim-assim, faça de tal e tal modo”. Ora, o que ele etá fazendo é vomitar em você uma fórmula fridlanderiana. Quando o jovem que vai estudar com ele já é um gravador , depersonaliza-se mais, e quando é um principiante a coisa torna-se desastrosa: aprende algumas fórmulas e começa a aplicá-las. Tanto é assim que a gente olha o trabalho de um desses jovens e sabe logo se ele estudou com Friedlander ou com Hayter. E a mesma coisa é na pintura, com Lhote, que é um pintor sem personalidade criadora e que fabrica anualmente dezenas de “lhotinhos”. Na verdade essa inflação de processos técnicos não acrescenta nada ao que entendo de como gravura e muito menos a experiência desses jovens artistas. O que é preciso é criar, dar alguma coisa de si, usar a fantasia e a vontade criadora, para gravar sempre mais em profundidade.

– Disse que poucos avanços fizemos em matéria de gravura.
– A maior parte das experiências, em metal, por exemplo, foram feitas no século XVII por Hércules Seghers, um contemporâneo de Rembrandt, por quem este tinha a maior admiração. Seghers era um homem devairado, que vivia bêbado e na miséria mas era um artesão hábil e inventivo. Muitas das gravuras de Seghers foram impressas nas camisas de sua mulher, que ele pegava escondido e usava em lugar de papel. Seghers já naquela época introduzia inovação na estampagem superpondo as cores com pequenos desvios, imprimindo para obter efeitos de noite amarelos sobre fundo preto. Articulou-se também a ele a invenção do “verniz-mou” e todas as possibilidades que o “verniz-mou” oferece. Na madeira cavada fundo usava tinta-óleo grossa e imprimia obtendo sobre o papel formas coloridas em relevo. Outro exemplo é o de Urs Graf, que viveu em 1515 por aí. Urs Graf gravou em madeira com linha branca sobre fundo preto, aproximando-se muito do negativo de clichê. Essa descoberta ocorreu séculos antes do aparecimento da fotomecânica… Rembrandt admirava Seghers mas não adotou suas técnicas, porque elas não correspondiam à sua necessidade de expressão. Os jovens de hoje deviam seguir o exemplo de independência e fidelidade a si mesmos.

Não se ensina

Goeldi faz uma pausa e retoma:
– Eu e Lívio Abramo tivemos mais sorte. A guerra cortou todos os nossos contatos com o resto do mundo, de modo que ficamos aqui sozinhos, sem ter a quem pedir conselhos (Segall só gravava em metal) e tivemos que abrir caminho à nossam custa. Cabe aqui uma observação: Lívio acreditava que os conselhos ajudam muito ao jovem gravador, que assim economiza tempo na solução de problemas técnicos com os quais iria perder anos. Já eu não penso do mesmo modo. Oartista, a meu ver, tem que descobrir por si mesmo tudo o que servirá à sua …que fará descobrir os valores da gravura, e tudo o que vier de fora ou é desnecessário ou prejudicial.

– No seu caso, como o processo se deu?
– Tendo nascido no Brasil, estava em Berna em 1916, e nesse tempo, com meus vinte anos, fazia desenho, não gravava. A guerra devastava tudo e o clima era de desespero e angústia. Conheci artistas, alguns vindo da Escola de Paris, vi trabalhos de Hodler e Barraud, mas nada daquilo correspondia a minha sensibilidade. Em 1917 fiz uma exposição de desenhos na Galeria Wyss. Mais tarde caía em minhas mãos uma monografia de Herman Esswein sobre Kubin, aí encontrei o espírito que correspondia ao meu. Em 1919 vim para o Brasil, com minha família. A paisagem brasileira me pareceu estranha, era como se eu nunca houvesse estado aqui. Procurei então assimilar as formas que, com a minha ausência, tinham mudado de fisionomia e de expressão. Desenhei muito para me assenhorear das formas ambientes, do novo mundo visual que ia ser a matéria de minha expressão. O que me interessava eram os aspectos estranhos do Rio suburbano, do Caju, com postes de luz enterrados até a metade na areia, urubu na rua, móveis na calçada, enfim coisas que deixariam besta qualquer europeu recém-chegado. Depois descobri os pescadores e toda madrugada ia para o mercado ver o desembarque do peixe e desenhava sem parar.

– Quando começou a gravar?
– Em 1923. Comecei a gravar para impor uma disciplina às divagações a que o desenho me levava. Senti necessidade de dar um controle a essas divagações. Por isso é que considero que as inovações que estão hoje em voga na gravura do século XX não são outra coisa que uma fuga, porque elas procuram burlar os limites da gravura. Reconheço que há nessas experiências uma vontade de liberdade, mas que afasta o artista do seu verdadeiro espírito da gravura.

– Sempre gravou em madeira?
– Fiz um pouco de litografia, ainda na Europa, para reproduzir desenhos meus, num livro que acabou não sendo editad: a litografia não dava o desenho tal como eu queria e assim desisti. Gravei também uma época em metal. Eu e Mário Túlio encomendamos a um marceneiro uma prensa toda de madeira com cilindros de pau jacarandá. Mas voltei a gravar em madeira, a madeira correspondia mais ao meu temperamento. E sempre fazendo xilografia: o exemplo de Munch e os experimentos dos alemães Beckman, Schmidt-Rottluft, etc.

– Grava diretamente na placa?
– Não. Toda gravura minha é desenhada muitas vezes, tomo apontamentos e só muito depois, às vezes anos, nasce a gravura.

Saturado

Como surgiu a cor em sua gravura?
– Ewstava saturado do preto-e-branco e procurei a cor. Inicialmente fiz umas aquarelas e depois tentei passar para a gravura. Nas primeiras gravuras em que usei a cor, usei-a com um sentido diferente, meio simbólico, meio fantástico, como na gravura do guarda-chuva vermelho e na do siri vermelho, entre outras. Nessa fase cheguei a fazer gravuras toda em policromia, com sete, oito cores e tons diferentes. Foi então que reparei que me aproximava da estampagem.

– Há quem condene a gravura em cores.
– Lembro-me que o crítico italiano – parece que Pallucchini – declarou que gravura tinha que ser mesmo em preto e branco, gravura em cor era desvio. Discordo dessa opinião. Tudo depende da aplicação que se faz na cor. Quando bem aplicada a cor não prejudica a gravura, antes a enriquece, como no caso dos japonêses, Gauguin e Munch. Pallucchini talvez tenha dito aquilo pensando nas experiências feitas pelos alemães, há algum tempo, cujo resultado foi fragoroso: faziam uma estampagem pesada com linóleo, que parecia mais pintura que gravura.

– Há gravadores que parecem se contentar com o preto e o branco extraindo deles ricos efeitos.
– Pode-se com o preto atingir efeitos de policromia mas isso não quer dizer que a gravura esteja obrigada a esses elementos. Com a cor consegue-se ótimo resultado. É certo que nem toda técnica recebe bem a cor. Ela fica melhor na lito e na xilo.

-Como se deu a sua passagem para a cor.
– Lutei com muita dificuldade, pois não sendo pintor minha experiência com a policromia era reduzida. O problema era substituir certos elementos preto e branco pela cor, fazer a passagem do preto-e-branco para a policromia. Cheguei a fazer, como já disse, gravuras inteiramente em cor, mas o resultado não foi satisfatório. Estou procurando agora introduzir a cor para expressar a construção e o bom funcionamento com as massas pretas.

– Por que as gravuras todas em cor não lhe agradaram?
– Faltava-lhes o elemento gráfico, eram mais estampagem. Atualmente procuro dar mais importância à gravação que é o esqueleto, o suporte para os elementos da cor. Outro ponto: mesmo quando uso várias cores faço a gravura numa só placa. Já houve tempo em que usei mais de uma placa para gravar as diferentes cores, mas hoje prefiro fazer numa só porque com isso consigo dar ao branco – a que empresto grande importância atualmente – uma qualidade maior, articulando-o de modo orgânico aos outros elementos da gravura.

– Já fez alguma gravura inteiramente abstrata?
– Certo que nunca poderia fazer uma gravura abstrata. Sempre quero expressar alguma coisa que é anterior às formas que gravarei, que envolve um sentimento qualquer de angústia, de solidão ou de fantástico. Não gravo diretamente, desenho primeiro sobre a chapa, dispondo as zonas de cor, de massa preto, os brancos, e só gravo mesmo quando considero que a idéia está clara, e então gravo dum arranco do começo ao fim.

Desenho

– Discutiu-se há pouco sobre o problema do desenho na gravura.
– A base principal da gravura deve ser o desenho. Seria bom que os gravadores desenhassem mais. Não entendo como desenho nem o desenho funcional de preparação para o quadro ou a gravura nem o desenho decorativo feito para acabar brilhantemente como peça de decoração de interiores. Falo do desenho como expressão autônoma. Normalmente se separam hoje o desenhista e o gravador, como se um gravador não pudesse ser um bom desenhista. A Bienal mesmo começou separando de modo que se um gravador expõe desenho ninguém leva a sério, como se fosse proibido ao gravador desenhar. A Bienal andou certa no caso de Morandi. Deu a ele, em 1953, o prêmio de gravura e agora o de pintura. Aliás, o exemplo de Morandi serve também para mostrar a correlação que há entre o artista e os seus meios de expressão.

– Que acha do concretismo na gravura?
– Não se pode esperar nem exigir do concretismo um enriquecimento da gravura, porque ele não se liga ao que há de próprio no material e no espírito da gravura. Usando blocos independentes, formas simples e esquemáticas, não abre caminho para uma especulação maior dos meios e da invenção. Não se vai exigir do concretista inovação nenhuma, porque é indiferente se o que ele fez é desenho, pintura ou gravura. A expressão do concretista está ligada mais ao seu interior que aos meios de expressão.

– Que pensa da situação econômica do arttista de hoje?
– O problema econômico do artista é muito sério, embora todo mundo procure ignorá-lo. É preciso dizer que o comprador impõe limites ao trabalho do artista. Além disso, há hoje uma política internacional de compra e venda de obras de arte que impõe ao artista condições a que ele se submete ou morre de fome. É o caso da Escola de Paris, sem o visto dela ninguém é grande artista. Hoje os americanos começam a criar também a sua escola e disputam o domínio do mercado mundial… O jovem que quiser vencer tem que se filiar a uma dessas escolas.

– Você o aconselha a isso?
– De consciência tranquila, não. Mas pelo menos ele fica rico como Picasso… Esclareço, para terminar, que não tenho idéia de botar freios em ninghuém. O melhor caminho para glória, prêmios e sucessos é mesmo o de fazer o contrário do que deveria ser feito. Cada qual faça o que quizer. Talvez haja alguns que prefiram exigir de si o necessário para ser um gravador e não um falso artista…

http://www.centrovirtualgoeldi.com/

25834_509424Goeldi

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: