Deixe um comentário

Só se aprende em contato com o outro – Evandro Carlos Jardim

http://vimeo.com/61981074

images

Evandro Carlos Frascá Poyares Jardim (São Paulo SP 1935). Gravador, desenhista, pintor. Em 1953, ingressa na Escola de Belas Artes de São Paulo, onde estuda pintura com Theodoro Braga (1872 – 1953), Antonio Paim Vieira e Joaquim da Rocha Ferreira (1900 – 1965), além de modelagem e escultura com Vicente Larocca (1892 – 19–). Entre 1956 e 1957, estuda gravura em metal com Francesc Domingo Segura (1893 – 1974). Especializa-se em gravura em metal, na técnica da água-forte. Paralelamente à carreira artística, desenvolve intensa atividade docente em várias instituições, como a Escola de Belas Artes, a Fundação Armando Álvares Penteado – Faap e a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP. Durante o regime militar, promove leilões de obras suas para ajudar os familiares de presos políticos e colabora com o movimento pela anistia política. Em sua produção gráfica, enfoca constantemente o cenário urbano de São Paulo. O artista, que revela extremo cuidado técnico na execução de suas obras, reelabora constantemente certas imagens, como a do Pico do Jaraguá, além de representações de pássaros, frutos, janelas ou de um cavalo morto.

“Eu cada vez mais me convenço de que a arte não deveria ser explicada, deveria ser vivenciada; explicá-la é uma atitude muito autoritária. A arte está no fenômeno, no acontecimento. Vamos deixar que as pessoas também se coloquem diante do que se faz”.

“Neste atelier existe uma singularidade que deveria ser cada vez mais enfatizada. Aqui se faz um trabalho independente que não tem como consequência o isolamento social. Isso me chamou a atenção neste trabalho de vocês, pois existe a noção do que é independência no sentido de uma liberdade individual e de consenso com relação aquilo que é do coletivo. Então, nada melhor, em um momento desse, do que colher depoimentos”.

“você pode escolher o que seria o centro, o eixo deste depoimento, e se ele se ajusta às questões do momento. Não esqueça que existe um monte de coisas acontecendo a nossa volta e vocês acontecendo junto. Precisa enfrentar isso direito. O enfrentamento não significa se colocar a favor ou contra, mas seria interessante que estivéssemos juntos, juntos com liberdade de pensamento, de ação. Sem dúvida alguma é uma tomada de posição. Na hora que vocês estão participando das exposições mais representativas, estão mantendo esse atelier e uma forma de pensar, o que tudo isso significa? Que contribuição é essa? Acho que é algo que não tem que se consumir no ‘eu’, existe o eu e existe o coletivo da humanidade juntos. É uma característica desta época o isolamento, o auto-elogio. Uma consciência parece ser importante: a consciência desse coletivo. Ela é muito esclarecedora, muito esclarecedora para o ‘eu”.

“O comportamento político é fundamental. A consciência política é fundamental num processo de educação. Política tem que ser posta sempre como diálogo profícuo. Diálogo que gera o entendimento. Senão não é política, é outra coisa. Por onde, no caso de vocês, um diálogo profícuo pode se manifestar plenamente? Através da obra de cada um”.

…”com a natureza é mais o impacto, porque a natureza não cede. Este impacto pede como resposta o que poderiamos chamar de concentração artística. O que é concentração artística? É possibilidade de interpretação através da representação e significação dessa realidade. Isso se faz e se aprende a fazer porque você é impelido pelo chamado interior, por alguma coisa que vamos chamar de manifestação poética, a manifestação dos meus anseios. Talvez o homem, toda vez que vai se manifestar, a primeira coisa que encontra é a natureza. Ela está lá e você, então, se concentra, se prepara para uma ação junto a ela. Um diálogo possível. Esse diálogo geralmente é feito como? Ele é feito através de uma possibilidade de entendimento que se faz através da representação e da significação. Se você apenas representar, não é o suficiente, porque a natureza diz para você imediatamente:’ eu sou melhor’. Mas quando você significa ela permite; ela permite ao homem, na significação, uma aproximação – se ele se dispuser a isso”.

…”sentimento, arte como expressão do sentimento. Material e inteligência; matéria e sentimento; sentimento / forma. Nós temos que entender que essas coisas são do humano. Porque o humano me parece assim: força vital, capacidade sensorial e capacidade intelectual. Está tudo junto, corpo e alma, matéria e forma. É uma dualidade. São duas coisas distintas, mas que se juntam para formar uma terceira. Então o que é matéria? Essa consciência a gente vai adquirindo com o trabalho porque se isso for feito de fato, essas idéias vão se aclarando. Quando a matéria vira forma, a matéria permanece, a forma existe. Você chega diante de um trabalho como este, fica quieto e contempla. Permita-se aproximar disso e o presente que você vai ganhar com essa disponibilidade é que penetre em seu espírito e quando chegar ao seu espírito, então você tem o direito da crítica. O direito da crítica não é nada mais, nada menos do que o direito de sentir. A apreciação é muito importante. A gente precisa dessas coisas para viver, elas são o verdadeiro alimento”.

“Em todas as épocas, você vai encontrar poesia e religião. Poesia e religião são os testemunhos da manifestação poética humana mais profunda. Porque elas vão além dos interesses mais imediatos. Toda época teve um caçador, mas teve um feiticeiro: o sujeito que encontrava no ato da caça um significado maior ainda do que simplesmente suprir uma necessidade vital de alimentação. Então a caça alimentou e alimentou, como cada atitude humana foi e foi, por causa das vivências poéticas profundas. Eu acho que é através disso tudo que nós temos a chave de interpretação de cada momento da história”.

“Só se aprende em contato com o outro. Porque tudo aquilo que você fizer absolutamente só, para você mesmo, vai se perder no seu interior, quer dizer, não vai ser útil nem para você. Nem a contemplação se faz só. O exercício do isolamento contemplativo se faz com a fonte criadora, com a razão de ser do seu ser. Aprender, aprimorar, evoluir, sempre se faz com o outro. O diálogo é vital, a consciência poética é vital, a consciência de si é vital.”
Trechos de depoimento de Evandro Carlos Jardim, dado no Atelier Piratininga, em 27 de abril de 2000.

images (1)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: