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Fayga Ostrower e a experiência da cor na gravura

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Fayga Ostrower (1920-2001), polonesa naturalizada brasileira dedicou mais de cinqüenta anos de sua vida a criar, discutir, analisar e promover a arte. Artista plural, enveredou pelos caminhos da ilustração, da criação em cerâmica esmaltada, projetou capas de discos e de livros, criou estampas de tecidos, dedicou-se à aquarela e  à gravura seu  meio preferencial. Integrou ao seu fazer artístico a atividade de teórica da arte, realizando palestras pelo Brasil afora e no exterior, em universidades, como convidada, assim como escrevendo vários livros sobre as questões da arte. Este duplo papel lhe confere singularidade no meio das artes plásticas no Brasil.
Autodidata, Fayga buscou a gravura como seu caminho na arte, após largar nos anos 40, uma bem sucedida carreira de secretária bilíngüe em uma multinacional, no Rio de Janeiro. Toda sua pesquisa plástica vai levá-la ao  pioneirismo da abstração na gravura brasileira. No amplo universo de nossa arte, esta artista representa o lado mais subjetivo e lírico da abstração informal.
Inicialmente sua gravura caracterizou-se por uma preocupação de cunho social, questão abraçada por outros artistas dos anos 40, em especial os gravadores, cuja influência dos artistas alemães do início do século vinte se fazia muito presente pelo contato com gravuras trazidas por imigrantes da Europa. Conjugavam-se aos trabalhos, aspectos do realismo social e da subjetividade expressionista no tratamento do drama humano.
Como dado assimilado da estética expressionista, Fayga defendia a concepção da arte enquanto um fazer que por sua natureza criativa enriqueceria o ser humano e em cadeia atingiria seus semelhantes. A aproximação de Fayga com esta estética deu-se particularmente através do contato com a obra de Käthe Kolwitz, da velha-guarda expressionista da Alemanha, por quem nutria profunda admiração, Os trabalhos desta artista   circulavam no Rio de Janeiro entre grupos de refugiados da guerra. Em sua obra, a tragédia humana é desnudada evocando profundas emoções. São claras as intenções sociais da gravura de Käthe, embora não sacrifiquem a qualidade artística de sua obra. Sua influência sobre a gravura de Fayga deu-se mais diretamente na sua fase inicial dos anos 40, caracterizada por uma figuração expressionista que apresentava lavadeiras, crianças de morro brincando, bares do subúrbio do Rio.
Se a modernidade de sua obra liga-se, por um lado, à tradição expressionista, por outro, deve muito às lições do artista Cézanne, responsável por sua opção pela estética abstracionista. Através de um livro  Cezanne’s Composition, de Erle Loran, que recebera de presente de um amigo , Fayga tomou conhecimento deste artista francês
De Cézanne, Fayga absorveu a idéia da arte como pesquisa incansável para concretizar e comunicar em soluções plásticas o real organicamente vivenciado. Com a obra do artista francês, Fayga percebeu a questão da estruturação do espaço em profundidade e um método para tal, estruturação baseada na liberdade do uso da cor, na exploração da luminosidade do suporte-tela. A repercussão do trabalho da artista-gravadora não tardou a receber sinais de reconhecimento no Brasil e no exterior, tendo recebido o grande Prêmio Nacional da Gravura ,em 1957, na Bienal de São Paulo e o de melhor Gravador, no ano seguinte na Bienal de Veneza. Suas gravuras constituíam pretexto para a discussão sobre a natureza distinta da abstração informal, que tinha lugar entre os artistas cariocas.
Nesta tendência da abstração, a arte propõe-se a superar-se como objeto, pois seu espaço identifica-se com a própria dimensão do ser. O artista informal busca a expressão de algo que supere a presença sensível e concreta da obra, comunicando uma certa densidade interior.
Fayga realiza sua primeira exposição de gravuras abstratas em 1954. A partir deste ano  suas gravuras não apresentam mais títulos, nem mesmo aqueles termos utilizados por boa parte dos artistas da abstração geométrica tais como “composição”, “formas”, “abstração” e outros. Fayga decidiu identificar suas gravuras por uma numeração que conjugava o ano de criação da gravura e a ordem de sua produção naquele ano. Exemplificando: a quinta gravura realizada no ano de 1960 seria assim identificada 6005. Combinavam-se originalmente os tempos histórico e o da artista gravadora.
Desde os primeiros momentos de sua abstração, Fayga encaminha-se na busca de um equilíbrio entre noções e sensações. A artista quer “saber” o espaço sem todavia violar com esquemas simplificados a vitalidade através da qual este se manifesta.Como Cézanne, Fayga lançou mão de formas e estruturas assimétricas e por isso mesmo mais dinâmicas. A liberdade na articulação dessas formas pode parecer arbitrário só em aparência pois, na realidade, responde a uma vontade rigorosa de ordenação. A vocação das formas usadas por Fayga é dissimular a ordenação e, simultaneamente explicitá-la à sensibilidade do espectador. Fundidas num todo, elas compõem a “construction cachée” (escondida, reclusa) de que nos fala Kandinsky. Trata-se de uma construção que supõe rigor e precisão exprimindo-se por uma matemática que opera através de números irregulares.
O lirismo e a poesia, grandes arremates do trabalho de Fayga, revelam-se também singulares em suas gravuras. Nos anos 50, sua gravura encaminhou-se no sentido da expansão das cores. Nos anos 60, o espaço nascia colorido, as dimensões dos trabalhos se ampliaram e um soberbo lirismo se afirmava através de tramas delicadas e complexas das texturas da madeira. Transições suaves das superfícies coloridas passaram a comandar o equilíbrio.
A partir de 1965, Fayga  intensifica sua atividade na xilogravura, técnica primitiva, que ganhou com seus trabalhos uma nova dimensão estética. Com ela, a artista criava uma verdadeira sinfonia das cores, o que era inusitado, face à tradição da xilogravura, no Brasil, voltada para a tendência expressionista e tendo como seu grande representante Goeldi, mestre dos contrastes do preto e branco. É desta fase de exploração da cor, o Políptico do Itamarati, de 1968, painel que configura um dos momentos de maior felicidade inventiva de Fayga e documento eloqüente do apurado nível da abstração informal no Brasil.
Foi inédita a utilização da gravura em escala monumental. O conjunto resulta de uma engenhosa organização, de uma sutil engenharia. Em termos de artesanato e da técnica da gravura, uma soberba demonstração de virtuosismo. O complexo processo de superposição das matrizes revela a maestria de Fayga. Ao mesmo tempo que a madeira/matéria comparece para o enriquecimento da tessituras, dinamização das superfícies, também possibilita a criação de transparências, como se se ausentasse em prol de uma atmosfera imaterial.
A artista banha o painel com tons vermelhos e alaranjados, numa audácia cromática. Mesmo utilizando cores quentes, Fayga imprime a seu trabalho uma leveza desconcertante. As suaves transições de cor vão se dando como “um incêndio numa folha de papel de seda,”como afirmou o crítico Walmir Ayala. Fayga fez um uso particular da xilogravura, apoiando numa gramática de transparência, imagens de poesia e lirismo. Para obtê-las, submeteu as matrizes a uma complicada engenharia, sobrepondo-as de tal forma que as cores nelas impregnadas, exaltam-se ou se destroem em busca de uma possível harmonia.
Uma pluralidade de imagens é provocada e possibilitada por essa maneira singular com que Fayga explora as matrizes na construção do espaço gráfico. Diante do seu trabalho há um aprofundamento da visualidade, um contínuo buscar de texturas que se organizam e se movem originando outras estruturas. O olhar do observador não consegue se deter na imagem criada pelo plano em transparência que logo o remete a outras imagens. As transparências podem ser tomadas como metáforas dos tempos visível e invisível que habitam as gravuras de Fayga.
Com esta peculiar construção espacial, Fayga Ostrower contribui para o campo do Informalismo no Brasil, no sentido de emprestar musicalidade à arte abstrata. A artista subordina justeza à expressão, daí o clima de poesia revelado por sua gravura. Todo o movimento que as formas transparentes criam tem que ser vivido pelo espectador. É impossível permanecer indiferente tal é a maestria da provocação. Sua gravura resulta paradoxalmente de um “apaixonado” instante da razão.
A autonomia da obra de arte, questão básica para a conquista da modernidade, encontra sua plenitude nos desdobramentos da abstração informal, universo no qual se deram, no Brasil, as experiências de parcela significativa de nossos artistas gravadores, nos anos 50 e 60, experiências iniciadas e aprofundadas por Fayga Ostrower.

Fonte: http://www.coresprimarias.com.br

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