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Goeldi, O Poeta das Sombras

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Goeldi nunca foi um artista fácil. E nunca foi esta, também, sua ambição: ser fácil, digerível, consumível… Colocando-se sempre contra a corrente, Goeldi como que abominava a própria idéia do sucesso artístico, como se não fosse possível conciliar a fidelidade a uma verdade pessoal e íntima com os apelos do mundo. Um artista essencialmente romântico; em todos os aspectos positivos que o termo possui; Goeldi entendia o fazer artístico como viagem interior e inconformismo.
Ele desconfiava assim do sucesso de um Picasso, que lhe parecia um diluidor das formas modernas, e ainda mais do abstracionismo que a partir da metade do século XX predominaria em diversos ambientes. Herdeira também, mesmo que indiretamente, do simbolismo e do expressionismo, a arte de Goeldi é contudo, e paradoxalmente, uma arte comunicativa. E comunicativa não no sentido midiático, publicitário, mas sim em um contexto quase alquímico, no qual linhas, cortes, claros e escuros devem ser interpretados como registros de um embate de dimensão mitológica, no qual ser e matéria continuamente se moldam e evoluem. Neste sentido, mesmo sendo Goeldi um artista ‘figurativo’, em seus desenhos e gravuras um pescador nunca é apenas um pescador, uma casa nunca é apenas uma casa.

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A poética de Goeldi nunca foi, deste modo, uma poética ‘nacional’, na medida em que as paisagens e dramas a que deu forma tratam do universal, do humano em seu sentido mais amplo. Sua inserção assim no panorama da arte brasileira do século XX sempre se fez com alguma dificuldade, não havendo em Goeldi o pertencimento efetivo a nenhum dos grandes movimentos ou grupos que se organizaram no país a partir da Semana da Arte Moderna de 22. Não que Goeldi fosse um artista ‘marginal’. Longe disso, seu primeiro álbum de gravuras contou com o prefácio de Manoel Bandeira, um dos grandes poetas modernos brasileiros. Filho do naturalista Emil Goeldi – que veio ao Brasil a convite do Imperador Pedro II e fundou o Museu de Ciências Naturais do Pará, que hoje leva seu nome – Goeldi sempre pode freqüentar, desde a infância, elevados círculos intelectuais e artísticos. Seu ir e vir,contudo, desde a infância, entre a Europa e o Brasil parecem ter criado em Goeldi uma alma de eterno exilado. Exílio em um mundo destroçado pela guerra e marcado pelo surgimento de novos valores culturais. É neste contexto que a opção de Goeldi pelo trabalho como ilustrador de obras literárias deve ser compreendido: não como uma limitação ou mera contingência, mas sim como a estratégia consciente e lúcida de um artista que sabia ser impossível um retirar-se absoluto, mas que também não abria mão de sua independência.

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Desfeita a fortuna familiar, sendo necessário ganhar a vida, Goeldi trabalharia longamente como ilustrador, sem submeter-se ao texto, mas sim o recriando plasticamente, dando-lhe nova dimensão estética. As imagens que Goeldi produziu para alguns títulos de Dostoiévski editados no Brasil pela Editora José Olímpio são assim marco desta postura, e uma prova do sucesso de sua estratégia. Ao mesmo tempo em que sobrevivia, ainda que sem grandes luxos ou reconhecimentos, Goeldi ia criando, nos bastidores da cena artística mais evidente, uma obra singular e de grandiosíssima vitalidade. E o próprio Goeldi não tinha pejo de assumir seu ofício: em carta endereçada ao austríaco Alfred Kubin, seu mestre maior, Goeldi dizia textualmente “…nós, artistas gráficos”. Já no fim da vida, por sua vez, Goeldi lamentaria o suicídio de Péricles – o cartunista famoso no Brasil inteiro com o seu personagem O amigo da Onça – considerando-o um grande artista no seu gênero.
Efetivamente um dos maiores artistas brasileiros do século XX, e não só um dos maiores gravadores brasileiros do século XX, compreender Goeldi não é tarefa fácil, ainda mais nos dias de hoje, no qual os apelos pelo fácil e pelo consumível só parece haver aumentado. Eis, porém uma tarefa que vale a pena, pois a sombra e luzes que vemos em Goeldi falam de contrastes mais profundos, e que dizem respeito à existência humana naquilo que ela tem de mais essencial. Este exílio de que Goeldi nos fala não é, pois, apenas dele, e não trata apenas da perda de sua infância – tendo a Amazônia como seu quintal, em Belém do Pará – nem apenas de uma nostalgia européia, mas sim de algo maior, de um exílio, e de uma solidão, que não é apenas de Goeldi, mas sim de todos nós.

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