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Livio Abramo é melhor gravador do que se pensa

   Com esse título, o crítico Olívio Tavares de Araújo, curador da mostra Livio Abramo, Sempre, realizada no Instituto Tomie Ohtake, iniciou sua palestra , no mesmo local da exposição, afirmando que o conhecimento que temos sobre o  artista decorre, em muito, daquilo que se  lê sobre ele, e muito pouco da  convivência  com as suas obras, que são em sua maioria totalmente desconhecidas do grande público brasileiro.

    O título da palestra teve a finalidade de mostrar, que o desconhecimento da obra de Lívio Abramo, apesar de extremamente conceituado no meio artístico, por críticos e historiadores de arte, se deve ao fato do artista ter permanescido ausente do país por 30 anos ( de 1962 a 1992, no Paraguai, onde  faleceu) e também por que manteve-se distante dos holofotes da fama e do sucesso..
Longe do Brasil, explica Olívio Tavares, o artista não teria exercido o que ele chama de ‘ativismo’ ou difusor de sua própria obra, extremamente presente nos artistas de hoje, e que consiste em  provocar oportunidades para se firmarem no mercado e na  mídia: “não pressionava jornalistas,  nem museus, não criava fatos, não fazia concessões para estar sob as luzes dos refletores e do sucesso, nem no Brasil e tampouco no Paraguai”, afirmou. Por esses motivos, explica, o que sabemos de Lívio é através de livros e ensaios publicados que lhe conferem o mais alto conceito como um dos pais da gravura do Brasil , e muito pouco pela convivência com as suas obras.
Olívio Tavares de Araújo fez uma apresentação sobre a vida do artista, desde as suas primeiras fases marcadas pela militância e pela

escolha de temas sociais dos anos 30 quando começou a gravar.
Falou sobre posicionamento de Livio Abramo como jornalista contra o Estado Novo de Getulio, período em que diminui sua produção das gravuras, e a retomada marcada pela produção das 27 pranchas que ilustraram o livro Pelo Sertão, de Affonso Arinos, em 1946.
Seus posicionamentos políticos tiveram sérias consequências,
( prisões, expulsão do Partido Comunista, dificuldades  com trabalho) e mesmo no Paraguai, Livio manteve uma postura coerente em relação ao que acreditava ser ideologicamente correto. A ida do artista para aquele país, em aceitação ao convite que lhe foi feito em 1962 pelo Instituto Cultural Brasileiro, através da Embaixada do Brasil, foi uma alternativa às dificuldades financeiras que  estaria enfrentando no Brasil, como jornalista – apesar dos 30 anos de profissão – e como gravador, cujo último projeto, a criação do Atelier Gravura, em 1960, com Maria Bonomi, enfrentava problemas de ordem financeira

                  Levou para a arte temas sociais,
                  mas não a paixão da militância

                   Críticos e historiadores, segundo Olívio Tavares, falam de Livio Abramo com respeito e admiração, mas muito do que se diz sobre seu trabalho deve ser revisto.
Um dos equívocos cometido,segundo o curador, é o fato de tentarem enquadrá-lo na escola expressionista , pelo fato dele ter se utilizado da xilogravura ( herança típica dos expressionistas alemães), ou por seus temas sociais ( cita aí o historiador de arte José Roberto Teixeira Leite no livro A Gravura Brasileira – ver matéria) . Para o crítico, nem a sua primeira fase, em São Paulo, pode ser chamada de expressionista: os traços simplificados, o acentuado contraste do preto e o branco, e os temas sociais, eram construções mentais do artista e não simples expressão de sentimentos. O que se deve compreender, segue Olivio, é que apesar do   envolvimento do artista como militante político, e de ter uma imagem  de pessimista e de homem amargo,  ele conseguiu construir  sua obra com extrema racionalidade e domínio das paixões. Sua escola não é o expressionismo, cuja maior expressão no Brasil é Oswaldo Goeldi., continuou.  “É  só compararmos, por exemplo,  as gravuras dos dois artistas centradas no tema “ noite”,  comum entre eles, para vermos as diferenças de tratamento.”, finalizou.
Para Olívio Tavares, Livio Abramo teria iniciado, durante a sua curta passagem pelo Rio Janeiro, o caminho sem volta pelo construtivismo, com as gravações de paisagens e as cenas dos rituais de macumba: “As gravuras produzidas no Rio, em 1946, para ilustrar o livroPelo Sertão, de Afonso Arinos ( algumas delas expostas na mostra) já revelam os traços geometrizados que não o abandonariam até o fim.De início mais narrativo, mas ao final, quando grava as tempestades  e paisagens paraguaias, as plazas dos pueblos ( seus temas favoritos), os traços são fortemente abstratos”. Tudo é pensado,construído e organizado na obra de Livio, afirmou o crítico. “Sua obra não contém a deformação figurativa ,característica dos expressionistas, nem a gestualidade acentuada onde predomina a emoção”, finalizou.
Ao final da palestra, Olívio Tavares de Araújo acompanhou os presentes até a exposição esclarecendo, visita que contou também  com a presença da neta do artista, Lívia Abramo.

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