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Livio Abramo em Itapecerica Passageiro da Cultura

livio_itapecerica

Quando a argentina Maria del Carmen Pérez Sola organizou junto ao Museu Histórico e da Memória , em  Itapecerica da Serra, a mostra Livio Abramo: o passageiro da cultura , em 2002, quase ninguém sabia que o artista já havia passado por ali por  diversas ocasiões: a primeira, como morador, entre as décadas de 30 e 40 , depois em 80 e 90,  a trabalho ou para encontrar-se com os amigos. Em algumas dessas ocasiões, Pérez Sola imprimiu em seu atelier Gravura Atual, trabalhos do artista, como Tatu e algumas da série dos cavalos, impressões estas documentadas no seu livro de Registro de Impressões, guardado por ela a sete chaves.
São da primeira fase do artista naquela cidade, as xilogravurasItapecerica (1938), Itapecerica, Mulheres (1940), Itapecerica (1940) e, provavelmente, Itapecerica ( casinhas) – sem data; e da segunda fase , de 80/90, as duas gravuras em metal ( sem título), que registram ramas de chuchu, ambas de 1991 . Essas gravuras foram  expostas, em sua maioria, na mostra Livio Abramo, Sempre, no Instituto Tomie Ohtake, com um detalhe: o curador separou o grupo de gravuras de Itapecerica por achar que a gravura denominada Mulheres de Itapecerica, produzida em 1940 tivesse mais a ver com  a dramaticidade das mulheres da guerra civil espanhola do que com o ambiente bucólico das serras da tranqüila cidade paulista. Coisas de curador.

Da gravação para a impressão

   Pérez Sola chegou ao Brasil depois de obtida a graduação como especialista em gravura da Escola Provincial de Belas Artes, em La Pampa, Argentina, em 1961, e de ter finalizado a Escola de Belas Artes Ernesto de La Carcova, em Buenos Aires, em 1968. Conhecimentos que lhe valeram o contato com diferentes escolas da gravura clássica e moderna. Nesse mesmo ano decidiu morar no Brasil. Realizou e participou
de dezenas de exposições como gravadora (imagem), individuais e coletivas aqui e em outros países, mas foi, sobretudo, como impressora  que Pérez Sola

marcou presença no cenário das artes em São Paulo. Foi parceira de gravadores como Aldemir Martins, Flávio de Carvalho, Marina Caram, Clóvis Graciano, Rebollo,  Odeto Bersoni,  Hans Grudnsiski, Livio Abramo, Tarsila do Amaral, e outros. Imprimiu seus próprios trabalhos até final dos anos 90, mas dedicou-se, quase que exclusivamente, à arte da impressão e também como educadora: teve participação fundamental na reativação do NUGRASP – núcleo de Gravuras de São Paulo – e foi responsável pelo Clube da Gravura, criado para dar sustentação ao NUGRASP .
Alguns anos mais tarde, criou seu próprio atelier Gravura Atual, em Itapecerica da Serra, cidade onde reside até hoje. Em1983, organizou o Departamento de Artes Gráficas do MAM de São Paulo – Museu de Arte Moderna – e sistematizou através de cursos e curadorias de exposições, um método de trabalho como educadora. Para esses cursos, Pérez Sola desenvolveu um material pedagógico constando os procedimentos e noções fundamentais das técnicas e ferramentas necessárias ao processo da gravura.
  Impressão como processo de criação

              Nos finais dos anos 60, aqui em São Paulo, a maioria dos artistas imprimia seus próprios trabalhos, conta Pérez Sola. Os que tinham condições enviavam para fora do Brasil, como França. Com todas essas atividades, – como impressora no Clube da Gravura e como educadora no MAM , além de orientadora em seu atelier –  Pérez Sola acredita ter contribuído para abrir um campo de apoio à essa atividade. Valorizou com o seu trabalho a gravura como arte e como ofício. Teve dezenas de aprendizes, os primeiros, nunca esquece: “eram garotos da Febem, de 14 a 16 anos, que às vezes sumiam com as matrizes ou riscavam os trabalhos dos artistas quando estavam bravos”, lembra.

              Acompanhou de perto o incremento de novas técnicas e de materiais mais eficazes para impressão de gravura.

             Como artista, aprendeu muito também ao lado de outros artistas. Compartilhou com eles momentos de criação e aprendeu que cada um tem uma linguagem gráfica própria. Não há uma técnica padrão: o que é bom para um não é para outro. Para Perez Sola, o processo de impressão não ocorre separado do processo de criação e a obra só se completa quando sai no papel, que é o suporte que lhe garante visibilidade.

Afinidades e escolhas semelhantes.

Livio Abramo, Maria Del Carmem Pérez Sola e Pedro Seman

Com Livio a afinidade deu-se de imediato. Ele esteve em Itapecerica da Serra inúmeras vezes ( foto) e ela no Paraguai. O fato de ser argentina no Brasil , e ele brasileiro no Paraguai, deu origem a uma relação de afinidades,  de sentimentos semelhantes entre eles: de dignidade e de agradecimento aos países que os acolheram. Os dois artistas dedicaram-se profundamente –  no caso de Pérez Sola quase que exclusivamente – ao processo de formação de artistas e profissionais da gravura. E no caso de Livio, a relação de amor estabelecida com o Paraguai é exemplificada pelo crítico Olívio Tavares de Araújo através de uma passagem que ele não se esquece: conta que ao pedir para Livio Abramo uma indicação onde  pudesse encontrar peças do barroco paraguaio para comprar, teria obtido a seguinte resposta do artista: não falo…e se você encontrar não me conte e… se você contar… eu denuncio.
Com Maria del Carmen Pérez Sola não foi diferente aqui no Brasil.

      Lembranças registradas

Em 1969, numa das vindas do artista ao Brasil, Perez Sola imprimiu a obra Tatu, doada pelo próprio Livio ao Clube da Gravura. Imprimiu cartazes para exposições de Livio, depois finalizados em gráficas, e ainda gravuras da série Cavalos .Os últimos trabalhos em impressão que Pérez Sola fez para Livio Abramo foram as gravuras em metal das ramas de chuchu (sem título), em 1991, poucos antes do artista morrer, e que imortalizariam , segundo ela , a paisagem singela de Itapecerica.

Imagens:

1- Itapecerica, 1938– Livio Abramo

2- Vendedora , 1964.(gravura em metal).Buenos Aires. Maria Pérez Sola

3- Foto do acervo de Maria Pérez Sola

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