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Florian Foerster – O artista que mora em Berlim fala sobre a ponte que faz entre São Paulo e a Alemanha

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Natural de uma pequena cidade da Alemanha, Oldenburg, Florian estudou arte em Manchester, na Inglaterra, e desenvolveu um fascínio por São Paulo desde que visitou a cidade pela primeira vez, em 1991, quando fez uma oficina de gravura no Museu Lasar Segall.  De lá para cá, passou mais três temporadas na cidade, cada uma de quatro meses, desenhando “obsessivamente” bairros como o Brás e Centro, e fazendo pinturas, colagens e aquarelas inspiradas por essas regiões.

Usar a mesma chapa de cobre nas gravuras sobre o Jardim da Luz e investigar até quando ela duraria depois de sucessivas imersões no ácido para compor as obras funcionou como metáfora de repetidas visitas ao parque – em um processo de dois anos e meio de criação, recomposição de impressões e memórias.

Ele mostra os pedaços de cobre que sobraram da placa em seu ateliê. “Pensei que duraria meses e levou dois anos e meio para se desintegrar”, conta ele, que mora em Berlim há cinco anos, onde realizou exposições com as obras inspiradas em São Paulo. “O que faço é como uma escavação, como se eu fosse um arqueólogo da cidade, dos lugares. Procuro entender como funciona a energia de cada um deles.”

São Paulo é a maior inspiração de suas obras?
As principais são desenhar e a observação. Nas cidades que vivi, me senti realmente atraído por alguns lugares. Em Manchester, onde morei por muitos anos, há dois lugares que eu desenhei obsessivamente por 15 anos. De muitas maneiras, gosto de como os lugares parecem deslocados – se eu fosse mostrar todo o meu trabalho em uma exposição, ele pareceria ser de diferentes pintores.

Como na poesia de Fernando Pessoa, com diferentes personagens para diferentes lugares, gosto desse sentimento. Se for desenhar algo, preciso de muito tempo, de anos. O trabalho é uma mistura de memória, observação, imaginação – e tenho temas que me perseguem, ou que eu persigo, há muitos anos. Algumas partes de São Paulo se tornaram alguns deles. Quando estou na cidade, ou quando trabalho com temas da cidade, eu sinto muita afinidade, me sinto em casa, talvez por contraste ao lugar onde nasci, que era muito calmo e provinciano.

bras_bx_piO bairro do Brás sob a óptica particular do artista

Seu trabalho é um processo de digestão dos lugares.
Você digere, o lugar digere você, você responde a isso, você fica mais velho, a memória muda, ou como você responde às experiências. Em São Paulo, a própria realidade física da cidade muda. Se visitarmos a cidade com alguns anos de distância, isso se torna um forte estímulo.

Há uma energia que é maior que a ideia de planejá-la ou controlá-la. A cidade é um organismo natural. Na observação da realidade europeia, a coisas são estáticas. Muitos estrangeiros ficam frustrados porque São Paulo não é organizada – está em constante evolução, historicamente isso nunca foi controlado. Na Europa se planeja muito mais. No Brasil, as pessoas vivem mais no presente.

Há uma atmosfera escura nas gravuras, o Jardim da Luz é visto de uma perspectiva bem peculiar.
Para mim, o Jardim da Luz é um lugar totalmente particular. Porque todos vão até lá com um desejo – os homens velhos vão buscar as prostitutas e havia uma cena gay antigamente. E é muito silencioso e calmo lá dentro. Aos domingos, os músicos vão tocar.

É melancólico, mas de um modo lindo. Não é um lugar de festa e divertimento. As pessoas vão até lá com seus sonhos e esperanças, procurando felicidade por um tempo. Durante os anos 1990, quando a entrada do parque ainda era na Av. Tiradentes, tudo parecia onírico. Era claro, mas à medida que você caminhava para dentro, ia se tornando mais escuro, por causa da mata. Cortaram muitas árvores depois da reforma da Pinacoteca. Eu gostava muito também do bairro do Brás, com aqueles cheiros e oficinas – por ser industrial, me lembrava de Manchester. Desenhei muito o Edifício São Vito e outros prédios que foram destruídos.
santa-cecilia_boca-do-lixo_bx_piA Boca do Lixo e seus habitantes é tema de Foerster

Comente o processo de usar a mesma chapa de cobre.
Queria descobrir quanto tempo ela aguentaria até ser fisicamente destruída, mas como registros de gravuras de cada etapa. À medida que me envolvi mais no processo fiquei mais fascinado – eu pensei que fosse durar alguns meses, mas durou dois anos e meio. Era como estar em um parque ou na natureza, com o tempo você olha para as coisas e elas se tornam belas formas individuais. Se você observar as árvores, elas também se desintegram, nós mesmos nos desintegramos, porque mudamos com o tempo. Com a arte dá para trabalhar dessa forma destrutiva, como no caso da chapa de cobre, e criar algo bonito.

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