Deixe um comentário

Gravura: Do Espaço e das Forças Criantes

 

Roberto Burle MarxBurle Marx

Na arte de gravar, o espaço – ao ser tangenciado pela mão do gravador – se projeta num duplo despertar: o da matéria e o da mão sonhadora. O despertar é um projeto em ato, para aquele que se lança nos meandros das forças cósmicas, das forças maiores, das forças pulsantes, para além da individualidade. Tais forças atuam como persona. Encarnam potências do mundo, posto que no despertar atua um drama. Essa dramaticidade envolve potências trágicas, diversas das potências do psiquismo cotidiano. Do ponto de vista poético, tais potências devem ser ricas em expressividade. Só assim elas atingem o outro. Só assim elas se tornam solidárias. O drama individual é uma força de solitude, não segue vetor de solidariedade. Na arte, o despertar é também drama do outro – o dionisíaco é cósmico. Não há embriaguez passageira. Dionísio é uma fúria etílica, presente nas forças arrebatadoras do gesto do gravador. As forças marcantes desse poder nunca são anuladas por completo – são forças criantes do espaço poético. A imaginação dinâmica do gravador – imaginação de forças a operar forças – mobiliza energias diversas, tensões contrárias que se expandem ou se retraem pelo trabalho da mão. Imaginar e atuar se correspondem. O imaginar tem valor de ato, de um agir sobre o espaço poético. O percurso da técnica é criativo, faz-se vitalidade nos procedimentos instrumentais. O espaço poetizado pela técnica é criante. Criar é animar a matéria inerte, fazendo-a despertar dentro de si mesma, e desenclausurar-se do seu receptáculo interno. Na gravura, o espaço e o tempo são seres imagéticos. Neles interagem simultaneamente ato e elemento, mão e matéria, o instante poético e a espacialidade da poesia. O tempo ressalta nessa arte a dominância do espaço imagístico enquanto espaço do afeto – um espaço tátil. Não se trata do espaço neutro e homogêneo da Geometria. Na arte, o espaço ganha qualidades. Denso, o espaço se torna tecido imagístico. Mas a imagem não é representativa. Não surge como pós-percepto, nem como pensamento, nem como registro mnemônico. Ela não precisa de uma causa. Não precisa de um passado. Não é objeto, nem substituto do objeto. Ela surge. Surge enraizando-se como espaço do afeto. A chapa metálica, a massa de pedra, a madeira ou a tela constituem espaços de amorosidade. Os instrumentos também. Extensão do corpo, eles operam numa espacialidade singular, produzindo efeitos da imaginação criadora. Quando o artista insufla tais efeitos, captá-los é ofício da mão. A matéria trabalhada pelo gravador se confirma espaço resistente, espaço rígido. Inanimada, a princípio; para rompê-la ou para acariciá-la, para penetrá-la ou para habitá-la, a mão opera forças rápidas e forças lentas, forças abruptas e tênues: simultaneamente rápidas e lentas, abruptas e tênues, em concomitância e reversibilidade.

fonte http://www.revista.agulha.nom.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: