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Gravura: Do tempo e da comtemplação

 

carlos-scliar-linoleo-gravura-quadros-arte-moderna-brasil_MLB-O-141415576_6525Carlos Scliar – Linóleo

A gravura quer ser olhada. O contemplador quer vê-la. Nesse momento, um Narciso cósmico se coloca diante do espelho. Então, a gravura reage. Mais que contemplação, ela é ação. Lembremos a observação de Bachelard: Não se contempla a gravura; a ela se reage, ela nos traz imagens de despertar – imagens atuantes no tempo do olhar. Nesse olhar, Narciso não é mito. Nem faceta do psiquismo mal resolvido. Narciso se torna força de ação bilateral. Um olho nos olha intensamente. Em instantaneidade, ele nos percorre a pele. Olhamos Narciso. Olhamos para ele com todos os sentidos. Metamorfoseâmo-nos em cauda de pavão surpreendida pelo olhar que nos surpreende. Nesse momento, reagimos solidariamente. A sedução do olhar é sedução consentida – sedução de forças imageantes. Tem poderes de vontade. Tais poderes implicam ultrapassagem dos limites do exterior e do interior, se nos pomos a construir uma superfície dentro das coisas e um interior em desvelamento. Eis alguns dos movimentos e forças atuantes no tempo da contemplação. Para percorrer poeticamente o espaço, se torna necessário dar-lhe temporalidade: um tempo poético – o tempo de retenção de cada momento da imagem. Esse tempo é explicitado em cada momento único da arte de gravar, reunindo o inanimado e a mão sonhadora. O inerte reage. Potencializa-se. Nesse instante da matéria e dos olhos, as imagens de despertar atingem e revelam dinamismos da materialidade. A imaginação dinâmica – imaginação dos movimentos – reúne forças diferenciadas, opostas à mão e inerentes à mão: potências propiciatórias de uma hierarquia do movimento. Criante, a mão sonhadora tece o espaço. Tece o tempo. Na gravura se cria o espaço-tempo uníssono que nos impele a reagir diante do ser nascente em cada faceta da multiplicidade. O gravador desvela, na pluralidade, a unidade. No uno, o múltiplo, e diferenciado. Eles se articulam nas etapas da arte de gravar. O lineamento e a nebulosidade da imagem eclodem em transformações. A “linha” e a “mancha” não pertencem ao pensamento. Não são abstrações. O traço demarcado e as áreas diluídas realizam seus próprios limites e expansões, encontrando limites e expansões do metal e do ácido, da fibra celulósica, da pedra e da tela incontida no chassi, nas malhas do tempo poético. Diverso da cronologia que marca sucessão, o tempo da gravura se detém. Por ser poético, ele é vertical, nos diz Bachelard. As imagens sobem ou descem em verticalidade, de acordo com o sentido que lhes é dado pelo artista. Trata-se de um tempo imagístico. Na gravura, ascese e descese são processadas pela mão sonhadora, ao transmutar a matéria espessa em movimento extensivo à fibra do papel. O gravador conhece profundezas e altitudes da matéria imaginada e do gesto em ofício. Na ascese e na descese, o que parece vazio é pleno. A incisão na pedra, a corrosão processada pelo ácido, a canaleta aberta pela goiva, a tela interceptada por uma forma, os vazios decorrentes e seqüenciais do procedimento técnico se desvelam em plenitude. Os sentidos do pleno recuperam as entranhas desses vazios, no eixo vertical do tempo em que contemplamos o Narciso que nos contempla, dando sentido às lacunas.Na pedra, cada marca gravada; na serigrafia, cada forma que intercepta a tela; cada lasca retirada da madeira: tudo se preenche de sentido, assim como a nova superfície assumida pelo metal significa preenchimento. Todo vazio registra movimentos. Tais movimentos demarcam lugares – espaços poéticos – densos e táteis ao corpo que ali se insere. Na gravura, os vãos se abrem em profundidade, em aprofundamento. São regiões que recuperam vontade e força dos líqüidos, da solidez, e dos elementos etéreos. A espacialidade transubstanciada revela ritmos e temporalidades, negando o curso do tempo linear. O vazio se preenche no instante poético, em cada etapa da gravação e na gravura diante dos olhos. Do vazio, o gravador fará um despertar. Em cada técnica, o vazio tem valores de despertar. Ao eleger uma técnica, o gravador descobre um modo único e singular de alterar a densidade da matéria, e de trazer ao mundo um novo ser: novo em imagem, novo em temporalidade. A gravura é uma dádiva da mão sonhadora! Nas mãos do gravador, o tempo sonha.

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