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Gravura – A reprodução de tempo e espaços

 

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Unidade na pluralidade. O múltiplo no uno. Eis a demiurgia da gravura. Na poética da arte de gravar, cessam as diferenças entre as etapas sucessivas. Interrompem-se as querelas relativas à matriz e à reprodução. Funde-se a trilogia: desenhar, gravar, reproduzir. Ao dar nova ordem ao tempo, ao espaço, à matéria, o gravador nos revela que a reprodução não tem efeito de cópia. Tem efeitos de simultaneidade. O que se multiplica na gravura é sua temporalidade, a reprodução é um evento de simultaneidades. “Reproduzir” é produzir espaços e tempos de poesia. Podemos, então, dizer que o gravador conhece os sonhos da matéria inerte, que se quer sensível, plástica, iluminada. Na poética da gravura, desenho, matriz e reprodução se fundem num corpo único, entre momentos de luz e sombra. Na gravura, o uno nasce de um lugar-entre. Nem desenho, nem matriz, nem reprodução, a gravura nasce como entre-fase: entre-luz da matéria em transmutação. Eclode do movimento desvelado pela mão transformando a matéria com forças contrapostas. Para conhecer a dominância dessas forças, o contemplador deverá aprender esta lição poética: “Com singular convicção, a imaginação afirma que o que ilumina vê. A luz vê.” Impelida pela mão do gravador, toda matéria é luminosa. A matéria vê. E a mão sonhadora elabora um lugar entre natureza e trabalho, entre devaneio e concretude, nas imagens de despertar eclodindo em cada um dos momentos da gravura apreendida pelo “contemplador”. Desenhar, gravar, reproduzir, repetimos, não são tarefas justapostas. Interpenetram-se a cada etapa. A cada olhar. A cada despertar. São momentos únicos e múltiplos da matéria e da imagem, do espaço e do tempo reunidos pela alquimia da mão sonhadora, alquimia que entrelaça o kósmos e o eu, no ato de criar. A gravura, arte da matéria realizada, arte da mão que sonha os sonhos da matéria, a ela reagimos arrebatados pelos “poderes hierárquicos dos movimentos”. É propício agora meditar sobre as palavras poéticas de Bachelard: “As alegrias do olhar se renovam conforme a hora e a estação, conforme o humor. Que benefício é ter uma gravura na própria casa.”

Mirian de Carvalho. Crítica e poeta. Vice-presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte.

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