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Luz e Cor – Goeldi

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As cenas de Oswaldo Goeldi deveriam ser noturnas, mas a noite não tem contornos tão nítidos. Não há diferença, nelas, entre sol e lua: é sempre a intensidade da luz que faz com que tudo se torne preto. Tampouco há distinção entre o preto e outras cores, às vezes brilhantes. Tanto um quanto as outras não criam sombras, não pairam no ar, não estabelecem relações tonais. Ficam grudadas aos objetos como uma pasta. A luz não se mistura com elas, e é obrigada a se insinuar pelas frestas, entre as figuras. Ou, inversamente: a luz separa as coisas, mas não as toca. Van Gogh transformara o sol em matéria, mas era uma matéria que empenhava o mundo. O sol de Goeldi também é matéria, mas por isso mesmo permanece distante, incomunicável.
A reflexão de Nuno Ramos sobre luz e cor é norteada, a meu ver, por Goeldi e Oiticica. Do primeiro, escreveu que suas xilogravuras parecem janelas pintadas de preto, que deixam vazar fragmentos de uma luz potente e constante (1). Do segundo, que nunca usava cores puras, apenas tons e matizes (2). Ou seja: cores contingentes, de transição entre um valor e outro, que são porém elevados a um estatuto absoluto ao impregnarem todo o espaço (Penetráveis), ou todo o objeto (Bólides). Em vez de se acordar entre si e com o entorno mediante relações tonais, as cores de Oiticica demandam uma absorção total da retina, a aceitação ilimitada de uma sensação de cor que, por não ser pura, não tem nada de ideal. A cor de Goeldi é tão distante que inviabiliza qualquer ação. A de Oiticica, tão próxima que sufoca qualquer movimento.
Em vez de impregnar, a cor de Nuno Ramos estagna. O mesmo se dá com a luz. Em Sol (Série 1) (2001), a técnica é parecida com a das Noites Brancas: linhas e manchas produzidas pelo desmanche do bastão a óleo sobre um papel encharcado. Do sol, aqui, é conservada apenas a irradiação, sem luz, numa cor morna que mais lembra cinzas mortas. Há, se tanto, fragmentos de folhas de ouro, prata ou cobre, dejetos de uma luminosidade à deriva. Os desenhos imitam o movimento com que luz e calor se transmitem, mas sem que haja transmissão – como um fóssil imita o movimento de um bicho.
As cores escancaradas, cafonas mesmo, da segunda série de Sol (Série 2) (2001), não devem enganar: não há, nelas, mais luz ou mais cor do que na primeira série. As placas recortadas de acrílico são espelhos toscos, que simulam o reflexo mais do que refletir realmente. As áreas pastosas de vaselina são as que mais de perto lembram as gravuras de Goeldi e os Bólides de Oiticica: cores encardidas, já prestes a apodrecer. Fortes, mas de uma intensidade que recai sobre si mesma, como por excesso de peso.
Seria inútil buscar uma relação entre esse uso da cor e uma parte consistente da pintura brasileira, que continua procurando, às vezes com muita inventividade, uma mediação possível entre cores da arte e cores do mundo. A única comparação possível, entre os artistas atuais, é com Cildo Meireles, que, como Nuno Ramos, parece acreditar que a união de arte e mundo só se dá por caminhos forçados: no caso de Cildo, pela ironia, pelo kitsch, pela alegoria, pela distorção quase patológica das relações de espaço e tempo — por tudo, enfim, que possa marcar ao mesmo tempo um encontro e uma distância.
A cor não é da mesma ordem do contorno. O contorno imita, a cor existe — por si, ela é viva. Para amortecer essa vitalidade imediata, só há dois caminhos: levá-la até o limite de se tornar linguagem, transformando-a em valores precisos, passíveis de jogos combinatórios (é a solução de Kandinsky); ou fazer surgir, atrás dela, um corpo mais vivo ainda, mesmo que monstruoso. A vaselina e a pelúcia coloridas de Sol (Série 2) são corpos dessa última ordem, como o são as coisas banais que emergem do vermelho no Desvio de Cildo Meireles. A cor de Oiticica ainda acredita numa conciliação entre inteligência e mundo, nem que seja sob o signo da regressão uterina; a de Cildo Meireles permite um distanciamento irônico. Nem uma coisa nem outra acontece em Nuno Ramos. Para que as cores falem com as coisas, é preciso que deixem de falar conosco. Que renunciem a ter nosso gosto. São cores-coisas, sem significado ou intenção. É isso, certamente, o que Nuno mais aprendeu com Goeldi.

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