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Poética das gravuras

Osvaldo-Goeldi

Xilogravura

 

Na Xilogravura, a resistência – maior ou menor – da madeira sofre transformações. Criam-se na madeira novos veios, outra trama. Fibras nascentes vão compondo vãos e cortes abertos pela goiva. Essas fibras nevrálgicas – amalgamadas ao branco do papel – compõem com ele os ritmos das fibras insurgentes, a contrastar com o filamento negro ou colorido da impressão. Integrada ao papel, a cor negra adquire valores de liar. O negrume e a coloração registram uma urdidura única, inexistente na natureza.

 

A xilogravura recria o tecido celulósico da árvore. Faz dele uma nova matéria – nem orgânica, nem inorgânica – que, integrada ao papel, cria um interlúdio de luz e sombra no aglomerado de fibras invisíveis a recriar o branco no espectro de luz. Banhado de luz negra, o branco e o negro pertencem também ao espectro solar. O branco e o negro se tornam ora mais opacos, ora menos densos, nessa tensão luminosa. Diante dos poderes de despertar, podemos repetir as palavras do filósofo: “Então o branco da página põe-se ele também a florescer.” As forças celulósicas da prancha e do papel são uma florescência de fibras.

 

A xilografia é um despertar de beleza vegetal.

 

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Litografia

 

Na Litografia, o artista depara com outras forças defensivas. Uma resistência inesperadamente doce reveste a pedra. Os limites e as expansões da linha e da mancha devem atenuar ciclicamente as profundezas da rocha. Imagens de profundidade e de superfície se alternam em ciclos, no trabalho da mão sonhadora. Ciclos precisos, ritmados por forças leves, extraem sentidos do oculto a pulsar no interior da pedra.

 

A litogravura traz à luz segredos de uma caverna. Entreabre o ser da pedra: superfície profunda e profundidade à flor da pele. Profundeza emergente, a pedra, em tudo preparada para receber uma força máscula, requer a perícia de um talho delicado. À mão sonhadora, ela pede: – Da flor, grava a pétala!

 

As linhas e marcas na pedra formam um microcosmo hidrográfico na fixação da tinta, em efeito de atenuada cheia. Transbordando e derramando águas, pequeníssimos e mansos córregos, minúsculos mares – sob a pressão da prensa – vazam para o papel, interagindo com as fibras. A litogravura é um despertar de delicada, quase invisível, hidrografia.

 

É “um sonho de beleza mineral”, entrelaçando pedra e águas imaginárias.

 

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Gravura em Metal

Na Gravura em Metal, uma força vulcânica deve ser controlada e transformada. Além da persistência do movimento da mão, na placa de metal atua a tenacidade das forças calóricas – forças advindas do ácido entranhado ao metal, ou dos instrumentos cortantes desbastando-o, como o buril e a ponta seca. Da mão, advêm ainda instantaneidades reguladoras – forças de equilíbrio do tempo exato da corrosão ou do desbaste. Ao nortear esses procedimentos, a mão realiza uma poética do fogo. Do fogo que arde, e da haste que escava e se entranha na placa metálica. O material da chapa desperta ambigüidades, opondo forças de vida e morte. Algo vive, algo morre – a matéria. Em transformação, nela se registram forças nascentes e forças de destruição. Algo morre. Algo vive – a matéria.

 

A pele ferida do metal – mergulhada em ácido ou transformada por incisões – substancia outra superfície. O ácido, água ígnea – fogo fluído – fere mortalmente a placa metálica. O desbaste pelos instrumentos, também. Mas a superfície corroída reage. Renasce. Dela advêm as imagens calóricas imiscuídas nessa técnica. Ao acolher a água ígnea ou o desbastamento, o metal se contrai e se dilata. Abre-se ao calor e ao corte. O morrer e o viver se contemplam. No drama da morte e da vida do metal, nascem seres luminosos. Nessa combustão, no corte, não há cinzas, “não há escombros”, diria Bachelard. Não há réquiem. O que resta origina poderes de criação.

 

Na gravação em metal, o ácido, os instrumentos, movimentos e ritmos perfazem efeitos do calor. O fogo anima a imagética do gravador nessa técnica.

 

A gravura em metal é um despertar de beleza das chamas fluidas e da incisão corrosiva.

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Serigrafia

 

Na Serigrafia, limites e expansões da matéria se fazem leves e vitais pelo engenho da mão do gravador acolhendo a técnica. Uma força rápida emerge nesse processo de gravação. O processo de secagem se impõe como resistência. Na instantaneidade dos seus movimentos, o gesto hábil do gravador alcança poderes sutis do universo e da imaginação. No instante da evaporação, a mão fixa o kósmos e o sentir. Imaginar e agir se correspondem no decorrer dessa técnica.

 

Numa espécie de sonho etéreo, a mão opera a evanescência das cores foscas e das cores transparentes, retendo um mundo prestes a desaparecer. A resistência ganha uma nova ordem. Na tela, transparências, intercepções e películas de recorte operam forças a serem vencidas. Subleva-se uma força sutil a ser contrafeita: a evaporação. Da secagem emanam forças que devem ser dominadas. Para transformá-las, a mão as surpreende com movimentos céleres e definitivos.

 

A impressão é direta, imediata. A mão do gravador recria o papel. Recria em seu tecido possibilidades permutacionais e transparências cromáticas. A plasticidade da cor é metamorfose, porque a serigrafia não é uma camada de tinta sobre papel. O procedimento técnico se reinventa ao inserir-se no papel outra cor e outra densidade advinda da transformação de suas fibras. O tênue movimento da mão – seu peso quase inexistente sobre o papel – é suficiente para retexturizar as fibras celulósicas.

 

A serigrafia é um despertar de rapidez de forças evanescentes.

 

Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br

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