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Ocidente e Oriente na gravura de Fayga Ostrower

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As gravuras de Fayga partem da reunião dos aspectos artístico-estéticos das duas grandes cepas da civilização: a ocidental e a oriental. A prova disso consiste em que sua obra foi muitas vezes comparada à arte oriental pela crítica, sem contestação por parte da artista, que tinha na gravura japonesa e na escrita chinesa algumas de suas fontes.
O deslocamento que a gravadora efetua é sutil, pois fica na linha divisória entre o estranhamento e a rebeldia. Dentro desta linha, em torno de uma cumplicidade maliciosa ou irônica com o espectador, é que parte da obra de Fayga se desenvolve.
Cumplicidade que reside num lado circunspecto proveniente da herança ocidental de construção plástica, apresentado pela artista na maior porção da superfície de suas gravuras e a colocação exótica oriental, quase lúdica, de formas ou cores ambíguas, que ora complementam, ora contradizem o aspecto geral da obra.
Mesmo o equilíbrio plástico que é o lado metódico de sua criação e que consiste, paradoxalmente, em base convencional para o desenrolar do segundo aspecto – do lúdico, do choque – é alterado. Observa-se uma certa irreverência plástica que lhe cabe como característica de fases de sua obra, quando a artista denuncia/brinca/desafia os princípios estéticos da arte e, por extensão, da vida.
É como se Fayga deixasse um recado lembrando que tudo muda ou se modifica; nada é perene – nem a arte. Assim, sua gravura não é exclusivamente informal, mas abrange também estruturas formais e nela se fundem os elementos provenientes das duas metades do mundo: Ocidente e Oriente.
A cultural ocidental – o fundamento básico de seu trabalho se revela no deslocamento, este executado de uma maneira oriental, porém denuncia sua origem no Dadaísmo europeu.
O deslocamento é profundo; Fayga não altera o sentido dos materiais, como Picasso, mas opera com critérios estético-artísticos de duas civilizações que são resolvidos no domínio estético das formas. Não se pode negar que Fayga utilizava formas deslocadas em suas gravuras e nem atribuir isso à sua ingenuidade. Este é um ato consciente em se tratando da árdua elaboração de uma gravura. Aqui entra também o pensamento e a intenção por detrás do ato artístico que ousa executar a mistura ocidente-oriente.
Do Dadaísmo se diz: “A forma livre, a possibilidade de que todas as coisas da realidade fossem objeto da práxis artística, constituíam os princípios básicos desta rebelião artística através da anti-arte, desatando ao mesmo tempo novas possibilidades construtivas de expressão.” Thomas, K. Diccionario del Arte Actual. Ed. Labor S.A. Barcelona.1982.
Sua gravura é escolha deliberada para quebrar padrões e atingir uma determinada estética ainda indefinível em suas obras e que somente pode ser rastreada.  Isto é devido, a meu ver, a dois motivos: à complexa fusão resultante de uma arte ocidental-oriental e ao pensamento por detrás da concepção de tal arte que ainda está preso aos modos específicos de linguagem de cada lugar do mundo. As duas linguagens são incompatíveis pela simples formulação diferente do pensamento – veja-se a escrita ideogramática chinesa e a nossa – o modo de pensar oriental é ligado ao fragmentismo e o nosso ao linear.  Mas Fayga já sabia e hoje, com a globalização e a internet, estes dois mundos nunca estiveram tão próximos.

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