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Abstrações – Goeldi / Grassmann

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Grassmann disse, certa vez, que sua arte era mais realista que a de Goeldi, o que à primeira vis­ta parece uma afirmação sem propósito. É que logo nos vêm à mente as paisagens urbanas das gravuras goeldia­nas, seus pescadores e peixes cortados ao meio na pei­xaria: imagens do mundo real, cotidiano, enquanto as figuras de Grassmann pertencem ao mundo imaginário habitado por cavaleiros medievais e animais inventados. Não obstante, essas figuras têm um grau de “reali­dade” que não se vê nos casarios e pescadores de Goeldi, levados a uma simplificação formal que os abstratiza, excluindo deles os traços realistas que definem as for­mas naturais. Já os cavaleiros, mulheres e bichos de Grassmann estão contraditoriamente impregnados de realismo: seja o rosto dos cavaleiros harmoniosos e se­dutores, seja a figura de um peixe com sua mandíbula musculosa e seus dentes agudos, expressão de poderosa animalidade. E nesse particular devemos dar atenção aos olhos, tanto das figuras humanas quanto dos ani­mais e seres monstruosos: são eles que imprimem rea­lidade — e até estranha humanidade — aos seres fantás­ticos do mundo grassmanniano.

A malignidade que parece impregnar as figuras desse universo imaginário não exclui, muitas vezes, extraordi­nária delicadeza e requinte, como, por exemplo, na gra­vura abaixo, em que dois cavaleiros, de armadura e capa­cete, parecem arrastar para as profundezas da noite uma figura angelical de adolescente, enquanto seus capacetes cobertos de adornos relampejam no escuro como joias negras. Tais contrastes parecem constituir a matéria poético-semântica dessa arte noturna, em que a beleza é sinistra, e os demônios, irresistivelmente sedutores. Vem daí a poderosa carga expressiva de suas gravuras e dese­nhos. Costumo dizer que fazer arte é soprar espírito na matéria. Daí vem a conclusão de que o artista terá mais êxito quanto mais de “espírito” — ou de expressão — im­pere em sua obra: o ideal será que, na obra, toda a ma­téria se transforme em espírito, em “poesia”, e nada res­te de material, de resistente à percepção. Ou seja, a obra deve ser integralmente absorvida pelos sentidos. Grassmann, em seus melhores momentos — ou quase sempre —, alcança esse nível de transmutação da maté­ria em expressão. Entenda-se que, quando falo em “ma­téria”, refiro-me aos elementos sensoriais todos, ou seja, ao próprio objeto, ao desenho, à gravura. São matéria, nesse sentido, não apenas as linhas, os planos, o negro, a luz, as próprias figuras, enfim, tudo o que se percebe. A obra estará tanto mais plenamente realizada quanto menos resistência esses elementos ofereçam à percepção do espectador. A obra-prima não deixa resto.

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