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Grassmann – Herança de símbolos

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A arte de Marcello Grassmann está no polo oposto da abstração, que resultara da desintegração da lin­guagem figurativa. A subjetividade que se expressa por meio das gravuras do artista mergulha, pelo contrário, na herança de símbolos figurativos que constituem a corrente milenar da expressão gráfica, tanto faz se co­mo pintura, escultura, relevo, desenho ou gravura. De­vo observar, no entanto, que tal mergulho não signifi­ca a mera adesão do artista às formas tradicionais desse universo figurativo. Pelo contrário, ao mergulhar nele, Grassmann estabelece, com suas imagens e significa­dos, um diálogo que o recupera e renova. Isso significa que, na sua arte, aqueles elementos expressivos, sem perderem o vínculo com um universo arcaico, valem-se dessas propriedades para se reintegrarem em nossa atualidade psicossocial. As imagens de cavaleiros me­dievais, de lança e armadura, junto com donzelas e gri­fos, tornam-se veículos de comunicação entre o univer­so arcaico e a sensibilidade moderna. Aí está a chave da própria arte de Grassmann, que nega os aspectos exte­riores da modernidade e, ao mesmo tempo, afirma-a ao nível da expressão estética. Noutras palavras, jamais se encontrará num de seus desenhos ou numa de suas gra­vuras a imagem de um automóvel, de um avião, nem mesmo de uma mulher vestida como uma dançarina de cancã ou como uma melindrosa; tampouco encon­traremos neles a figura de um santo ou de um anjo afá­vel. Nunca, porque eles estão povoados de seres extra­vagantes, às vezes malditos e malignos, habitantes de uma dimensão onde a fantasia se confunde com o pe­sadelo. Mas isso não seria suficiente para torná-los atuais: o que assim os torna é a linguagem gráfica que os constitui, de que nascem de modo imprevisível.
Trata-se de uma reinvenção moderna do desenho, di­ferente de como o consideravam os herdeiros da estética renascentista que adquiriria, no século XIX, depuração requintada nas obras de Ingres (1780-1867). A saturação provocada pelo academicismo levou os artistas a desco­brirem a beleza do inacabado, do esboço, do estudo. A linha deixa de ser apenas contorno para se tornar ela mesma expressão enquanto linha. E em Marcello Grassmann, em determinados momentos, o desenho se torna um emaranhado de traços, e desse emaranhado, como do caos, nasce a figura; o emaranhado ganha olhos, vive, ganha rosto, máscara, ganha dedos, garras, presas, patas, rabo. Alguns desenhos beiram uma espécie de desorde­nação deliberada, numa dialética da ordem e da desor­dem, que não é a mesma coisa que a do acabado e do inacabado, sempre presente no traçar das figuras; agora, trata-se da desordenação da composição, vinculada a uma população de seres que nascem do abismo gráfico, do sortilégio das linhas. Essa é uma relação nova do artis­ta com a linguagem e o objeto: a linguagem já não pre­tende que o desenho seja a coisa. Ao contrário, a coisa representada mostra-se puro desenho, pertence à dimen­são gráfica, “habitada” por todo e qualquer tipo de seres, desde o homens de armadura e capacete adornado até demônios e sáurios. Alguns desses seres Grassmann os conheceu na obra de Hieronymus Bosch, mas foram por ele assimilados, desfeitos e mudados em linhas, rabiscos, manchas, treva e luz, e assim reinventados.
O significado moderno do inacabado está em mostrar que a figura desenhada (ou gravada) não é a realidade, imitação dela: é invenção gráfica. É, por assim dizer, um retorno à origem: a figura se dissolve, se desfaz em sua matéria — traço, linhas, manchas — e renasce dela, como Fênix, mas desmistificada: não é mais fingimento de rea­lidade, é coisa gráfica, trabalho humano, hesitante, in­concluso, tateante, que não se sabe antes de concluir-se, como a mostrar que não quer ser senão desenho, realida­de inventada pelas linhas, produto da fantasia — invenção. Essa é a maneira moderna de renovar a ilusão do figurati­vismo: mostrar que a figura desenhada é apenas desenho, e não realidade; ou seja, é realidade inventada pelo artista — o desenho deixa de ser imitação para se tornar criação, realidade gráfica. Ao mesmo tempo, mostra que não é a transcrição de uma ideia já pronta, mas uma invenção que nasce no papel, naquele instante, na precariedade do im­proviso e guiada pela lucidez que aprova ou corrige.
Não há, portanto, uma concepção a priori da obra: a impressão que se tem é de que o desenho surge de um detalhe — por exemplo, um rosto de mulher — que atrai outra figura — por exemplo, uma cabeça animal — a que depois se junta outra figura feminina, esta, ao contrá­rio das anteriores, feita de simples contorno, sem mas­sa ou volume, só linhas. O jogo de recursos expressivos é comum a todos os desenhos em diferentes proporções e maneiras, o que contribui para imprimir a essas obras o aspecto de esboço e improviso, aliado a uma rara in­tensidade expressiva.
Noutro plano, observa-se como característica dos desenhos mais recentes de Grassmann o predomínio do erotismo, expresso na figura de mulheres nuas, de seios e, às vezes, de sexo à mostra. Um erotismo que não explora a beleza física da mulher, mas a sua sexualidade, sua eroticidade natural, corporal. Na verdade, aqui, o artista substitui a visão convencional da mulher idealizada na figura clássica da Vênus por outra, que elege a “feiura” como expressão erótica.
Outro dado que chama a atenção é a presença de um animal estranho ao lado da mulher, como a revelar a animalidade de seu erotismo. Às vezes é uma cabeça de cavalo ou de bode, de um diabo ou de uma besta es­tranha, não identificável. Esses seres, em alguns casos, parecem tentar a mulher, seduzi-la; noutros, estão sim­plesmente a seu lado, como se fizessem parte de seu co­tidiano, de seu convívio. Ou também podem parecer, pelo jogo de luz e treva, uma espécie de alter ego — ani­mal que dorme na pessoa.

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