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Gravura – Invenções

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Invenção. Isso significa que o artista expressa no que desenha ou pinta seu mundo interior? Será que aqueles cavaleiros e demônios, peixes, bodes, lagartos, existem dentro de Grassmann? E que seus desenhos e gravuras são a exteriorização de uma realidade infernal que o ha­bita? Creio que não, porque, se existisse, em que consis­tiria? Objetivamente, em nada ou quase nada: ideias, pensamentos, aspirações, impulsos, medos. Na verdade, trata-se possivelmente de um “estado de alma”, uma predisposição psíquica, mais do que qualquer outra coi­sa. Logo, a obra não é a expressão, e sim a invenção des­se mundo interior.
Temos, ao lado, uma gravura de fundo verde mostran­do o busto de um cavaleiro. Ele tem a beleza de um prín­cipe ou de um deus, mas sobre sua cabeça está montado um pequeno diabo e, coroando-a, os chifres e a caveira de um talvez fauno. O cavaleiro segura uma seta — seria ele um arqueiro? —, tem os ombros largos de um atleta meti­do numa armadura. Todo o conjunto — incluindo os chi­fres e o olhar iluminado do arqueiro — é de extraordinária e eloquente beleza. Uma beleza maligna. Qual a significa­ção dessa imagem de homem belo e olhar puro, mas en­volto numa simbologia satânica? Não se sabe. Mas o que temos diante dos olhos é uma das coisas mais belas que a gravura brasileira já produziu.
Na arte de Grassmann há uma estranha mistura de treva e luz, de maldição e pureza, como se tudo o que a com­põe nascesse da treva. São seres noturnos os que povoam o seu universo, animais inventados ou reinventados, sejam la­gartos e sáurios, bodes ou figuras humanas monstruosas, ca­beças de carneiros ou de demônios. Diz-se que sua arte tem raízes no gótico, talvez por sua afinidade com o mundo noturno das gárgulas e harpias. De fato, sua linguagem de formas suntuosas e caprichosas, de um luxo noturno, mas ostentatório e rico de adorno e detalhes, é sobretudo bar­roco. Ele está mais perto de Rembrandt, com seus capace­tes fulgurantes e suas orquestrações de treva e claridade, do que do vocabulário ascético do gótico, de que herdou, no entanto, uma espécie de “realismo” brilhante e rico.

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