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Samico – Auto-suficiente

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Há cerca de 20 anos Samico não tem mais ligação com galerias ou marchands. Encastelado em Olinda, criou uma estrutura em que produz, expõe e ele mesmo recebe em casa os interessados em comprar suas obras, além de enviar por sedex gravuras encomendadas via telefone ou e-mail.

– Quando voltei para Pernambuco, em 1964, procurei uma ruína para erguer meu espaço – relembra. – Ter escolhido esse prédio de três andares não foi por gulodice, é que foi o mais barato que encontrei. Com o tempo, aperfeiçoei muito o espaço. Quando chegamos, era apenas um quarto, que acabou ficando para as crianças (Samico tem dois filhos com Célida, Luciana, 47, e Marcelo, 43), e a sala era para dormir, comer, fazer gravuras e outras coisas inconfessáveis.

Neste momento ouve-se um barulho alto, como que latas caindo no chão, apesar de não haver mais ninguém em casa.

– Não se preocupem, é um fantasma que mora aqui na rua e de vez em quando vem me visitar – desconversa, sem se abalar.

A mudança para o bangalô em Olinda também afetou a sua produção. Com mais espaço para trabalhar, Samico parou de fazer gravuras pequenas e passou a gravar – exceto em trabalhos encomendados – apenas em telas maiores, de 90 x 50 cm, dimensão que marca sua obra até hoje.

“Som da moléstia”

Samico se diz ruim para guardar datas, mas tem um dia que ele nunca se esquece, o 11 de setembro, mas não pela tragédia das torres gêmeas nos Estados Unidos. Nesse dia, só que no ano passado, uma tupia – máquina usada para trabalhar a madeira – cortou a cabeça de seu dedo indicador da mão esquerda. Foi o único acidente grave nesses anos de carreira.

– Ainda bem que não foi na mão direita. Por isso eu sempre digo que tenho mais sorte que talento.

Outro acidente recente operou uma mudança radical em seu temperamento. Samico fez fama de ser uma pessoa arredia, difícil de se entrevistar, que não gostava de falar. Não foi o cenário que o Jornal do Brasil encontrou. De acordo com o próprio artista, uma pancada na cabeça fez com que ele desandasse a falar pelos cotovelos.

– Um poste bateu em mim. Foi um som da moléstia. Nenhum sino aqui de Olinda seria capaz de reproduzir um som como aquele. De lá para cá, não parei mais de falar e contar histórias.

Mas, se isso é verdade, como existem diversas entrevistas publicadas ao longo dos anos?

– Como eu não falava, eles inventavam tudo!

Enquanto diverte-se contado sua história passada e presente, além de muitos casos engraçados, o fotógrafo começa a disparar flashes e pegar os melhores ângulos para ilustrar a reportagem.

– Olha meu filho, fotos são R$ 1 cada, tá? E não fotografe as minhas pernas, as meninas podem ir ao delírio – brinca.

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