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Litografia de Lotus Lobo – A cor e a sua poética

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A partir do aprendizado inicial na Escola Guignard, em Belo Horizonte, e de um curso com João Quaglia, Lotus Lobo fixa seu interesse na litografia, através da qual vem desenvolvendo uma obra que se afirma como das mais instigantes e de maior interesse no contexto da arte mineira atual.
Integrando em 1964 o Grupo Oficina (formado por artistas da geração então emergente: Paulo Laender, Roberto Vieira, Klara Kaiser, Lúcio Weick, Nívea Bracher), Lotus Lobo participa de um trabalho renovador opondo-se, desde o início, à postura convencional, passiva, dominante no quadro da criação plástica mineira, ainda muito marcada pela passagem de Guignard. O Grupo Oficina iria, então, injetar vitalidade ao ambiente, a partir de intensa atividade criativa aberta à reflexão e ao debate (estimulado por Frederico Morais e Olívio Tavares Araújo), da mesma forma como ocorria com os grupos Ptyx e Vereda, na área da literatura.
Em seus trabalhos iniciais, Lotus Lobo já realiza uma gravura não-figurativa, tomando-a como veículo de reflexão sobre o próprio processo e a linguagem da litografia: buscando reverter ao segundo espaço – o papel – aquelas formas e matérias criadas na pedra litográfica e só com elas obtidas. A questão da linguagem e do meio específico já então se fazia objeto de suas reflexões. Contudo, resultaria estéril o trabalho se não contivesse elementos de projeção da sensibilidade, e é dela, em última instância, que a sua gravura haveria de se nutir.
Com a gradativa depuração das formas, eliminação das texturas e de transparências, Lotus Lobo encaminha mais tarde sua criação para o novo espaço, indicativo de uma cada vez maior preocupação em desenvolver uma operação ordenativa, pela qual vai articular signos ou logotipos poéticos, formas construídas em densos negros e estampados em imensas folhas de papel.
Entre 1967-1969, Lotus Lobo participa de intensas atividades, não restringindo seu trabalho à litografia. (Este é um período fértil para a arte brasileira, com a emergência de novas expressões e linguagens não objetuais, bem como a afirmação de figurações, principalmente a Tropicália e todo o seu extenso vocabulário crítico, com a retomada da antropofagia oswaldiana, as apropriações táticas e as reciclagens de culturas, em busca de uma linguagem nacional. Se de um lado a vanguarda procura impor uma arte conceptualista, demitindo a representação para trabalhar o espaço real – a terra, a natureza, o corpo, como suporte ou veículo da ação criativa ou da reflexão – por outro lado, há toda uma busca de representação realista, crítica, desembocando estas duas vertentes na metalinguagem em que a arte, o objeto da arte e o fazer artístico se fazem a questão nuclear da criação.
Lotus Lobo participa desse ebuliente quadro da arte brasileira, e juntamente com Luciano Gusmão e Dilton Araújo realiza happenings intervenções nas ruas de Belo Horizonte, e trabalhos conceituais como Territórios, apresentados no Salão da Bússula (MAM/RJ) e no Salão de Belo Horizonte (MAM/BH) – apropriações e intervenções poéticas dos espaços circundantes aos dois Museus, citando Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa.
Paralelamente, Lotus Lobo inicia uma pesquisa sobre a litografia industrial, e vai buscar na Estamparia Juiz de Fora elementos com que trabalhará até o final da década de 70, e que constitui o bloco mais importante de sua produção.
Este seu trabalho significa, primeiro; o levantamento crítico/sociológico/estético de uma área de criação rica em iconografia regional, e que informa as influências estética e o gosto da sociedade formada com o primeiro surto de desenvolvimento industrial de Minas Gerais, predominantemente na Zona da Mata.
Na sua primeira exposição individual (Galeria Guignard/BH, 1970) apresenta os trabalhos iniciais desta série: reproduções de matrizes, maculaturas apropriadas, estampagem de registros em grandes tiras de papel bobinado ou de plástico, nas quais se envocava a Minas depois do ouro: Minas-de-Bois-e-Vacas. Minas-Pasto. Minas-de-Taipa-e-Calça. Minas-Sarro-de-Ouro. Minas-de-Arnuvô-Paulista. Minas-de-Leite-Queijo-Manteiga. Minas-Caturra. Minas-das-Gerais. Minas-de-Finíssima-Primeiríssima-Qualidade.
Recuperando marcas litográficas – especialmente desenhos de rótulos de embalagens – criadas pela Estamparia Juiz de Fora para atender às pequenas indústrias de laticínio das primeiras décadas do século XX, e remontando as informações signográficas retiradas daqueles rótulos, Lotus Lobo cria um novo discurso poético-visual, que recupera e discute imagens praticamente desconhecidas e que representam uma quase perdida realidade. Sob lúcida articulação, essas imagens ingressam em um novo campo estético. Inicialmente, trabalha na recuperação das pedras que guardam os desenhos, mas em seguida, descobre as maculaturas – chapas de flandres, utilizadas para prova de cor, acerto de registro, e que vão recebendo aleatoriamente, sucessivas impressões. Essas chapas, o que chamei, na época, de ready-made caipira, são literalmente apropriadas pela artista e levadas para o Museu, ingressando na História da Arte. Às vezes, sofrem torções, ganham espaço, mas mantêm sua estrutura inicial. É claro que o olhar da artista, descobrindo o potencial estético da maculatura apropriada, e o gesto de deslocá-la para o Museu (quando estaria, destinadas ao lote de dejetos ou, quando muito, a servirem de parede ou teto das casas dos pobres da periferia), é que conferem às peças a dignidade de obra de arte. Da mesma forma os desenhos, a caligrafia da mensagem publicitária ou identificadora do produto retornam ao universo da arte, em outro nível, pela manipulação que Lotus Lobo faz de seus elementos (forma-cor-espaço). Já não se imprimem registro por registro, segundo o projeto original, nas folhas-de-flandres que serão transformadas em embalagem do produto (manteiga, queijo, doce, etc.) mas, se sobrepõem marcas, registros, cores diversas das indicadas, sobre folhas de papel, chapas de acrílico ou plástico (que serão por sua vez montadas) formando novos e surpreendentes planos lúdicos, nos quais o discurso se renova e se desdobra, multiplicando o universo dessa Minas-de-Boi, que as novas formas informam, no âmbito do estético e do socilógico.
Com esse trabalho em progresso, Lotus Lobo participa da Bienal de São Paulo, Bienal de Tóquio, Salão de Campinas, de Belo Horizonte, Arte-Agora (MAM/RIO), e numerosas exposições no Brasil e no exterior. Em 1970, obtém o prêmio Maior (bolsa de estudos na França) no IV Salão Nacional de Arte Contemporânea, promovido pela Aliança Francesa de Belo Horizonte.
Depois de dois anos dedicados a conhecer o ambiente artístico europeu, Lotus Lobo volta ao Brasil, retomando seu trabalho criativo e de ensino de litografia na Escola Guignard.
Seu trabalho avança no seu interior: a artista realiza álbuns em que estampa os rótulos em folhas transparentes permitindo uma riqueza maior de leitura através de sobreposições e desdobramentos. Mas depois de um longo e fértil trabalho quase barroquista, pela incorporação intensa das formas encontradas (muitas com as projeções rococó e art-noveau, próprias da época) encaminha seu trabalho para o campo síntese, desprezando aos poucos as informações verbais do rótulo a favor das formas figurativas e, mais tarde, desprezando também estas figurações, absorvendo apenas a decoração não-figurativa – as cercaduras, os planos de fundo – encerra o projeto com gravuras abstratas que tendem à construção, a rigor, à simplificação das estruturas dos rótulos. Na fase mais recente, estes planos geométricos se fragmentam.
Agora é a cor, que o total controle do processo litográfico permite à artista manipular. A cor impregnando o papel com aquela refinada sensibilidade que faz vibrar o espaço em silêncio. A cor e a sua poética, explosão da vida. A cor, na sua realidade-mesma, fragmentando-se e se recompondo, articulando-se, se sobrepondo, no fluxo e refluxo, fluida ou compacta. No seu interior, este movimento alimenta outras esferas de emoção, abrem comportas de memória evocativas, despertam para antigas ou antecipadas experiências.
Nesse belíssimo roteiro, Lotus Lobo atinge um novo ponto na espiral engelsiana; não volta a um estágio antigo, mas, carregando toda a experiência de um longo período de trabalho, aprofunda essa experiência, para projetar uma nova visão de mundo, sua lúcia intenção de arte.

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