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A gravura no campo ampliado

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Fazendo um breve histórico da gravura nas últimas três décadas, Riva Castleman relembra que: “a experimentação com vários processos associados à impressão ocorrida na década de setenta, vai gerar, entre outras coisas, a incorporação de papel artesanal, muitas vezes produzido ou projetado pelo artista. A idéia de gravura passou a incorporar muitas formas de trabalho feito a mão, depois de um período prolongado de fastio com a produção de edições impressas uniformemente”. A cópia única abre uma série de novas possibilidades para o gravador, que incorpora em sua gravura procedimentos muitas vezes próprios de outras linguagens como, por exemplo, a pintura, nas monotipias. Trata-se do gravador estendendo os limites da gravura para além dos meios usualmente aceitos. Outros procedimentos têm sido utilizados pelos artistas, alargando, também o conceito de gravura, quando a própria matriz passa a ser a obra, ou ainda na colagem, em que fragmentos de gravuras são combinados com outras linguagens. A intenção dessa reflexão é buscar o lugar da gravura na arte atual. O estatuto da gravura sofreu modificações e podemos falar de uma “gravura no campo ampliado”, trazendo para o campo da gravura questões que Rosalind Krauss coloca a respeito da escultura. “Para a arte pós-modernista, a prática se define em função não de um determinado meio dado – aqui a escultura“, poderíamos dizer – a gravura – “mas de operações lógicas efetuadas sobre um conjunto de termos culturais, e para os quais todos os meios podem ser utilizados: fotografias, livros, linhas sobre o muro, espelhos, ou a própria escultura” (KRAUSS, 1993, p.125-126)– ou a gravura. A fim de conceituar a gravura é necessário pensar, em primeiro lugar, a impressão, um procedimento quase pré-histórico para fazer imagens, sendo, portanto, uma das formas mais antigas de representação plástica. A impressão não tem matriz, enquanto a gravura pressupõe a presença de uma matriz que vai levar a forma impressa até o suporte, que pode ser o papel, o tecido, ou qualquer outra superfície imprimível. Essa impressão da matriz sobre o suporte dá origem ao múltiplo. A gravura não é a reprodução de um original, pois ela não tem original. Através dela a imagem se multiplica em várias imagens que são aparentemente iguais. A atitude dos gravadores nas últimas décadas tem abalado princípios básicos da gravura, como a reprodutibilidade. Assim sendo, a gravura, que desde o seu surgimento teve como pressuposto básico a possibilidade de reprodução, a partir da Pop Art transforma-se, mais que uma técnica, em uma linguagem. Quando artistas como Andy Warhol e Robert Rauschenberg introduzem a discussão sobre a cópia única, imprimindo sobre suas telas e combinando impressão e pintura a mão, eles atacam, portanto, um problema central da gravura. Com relação à possibilidade de reprodução da gravura ela já não é relevante, num momento em que se produzem milhares de cópias num curto espaço de tempo em técnicas como o off-set. As inúmeras possibilidades de reprodução da imagem abertas com o avanço da digitalização da imagem também contribui para o anacronismo da gravura. Assim sendo, definitivamente não é a possibilidade de reprodução da imagem o que move os gravadores. É, pois, a qualidade gráfica, e a possibilidade do uso da imagem fotográfica, entre outras coisas, que vai caracterizar a prática dos gravadores atualmente. A reprodutibilidade deixa, por tanto, de ser um valor em si, já que com o desenvolvimento da indústria gráfica muitas outras formas de impressão, mais rápidas e mais eficientes, se impõem, deixando que a gravura se realize plenamente em meio e tangenciando outras linguagens plásticas. Essa mudança de paradigma faz com que a gravura se desenvolva como linguagem, lançando mão dos recursos técnicos disponíveis. Portanto, ao se libertar da função ilustrativa, no Renascimento, a gravura começa sua caminhada rumo à desfuncionaliz ação. Mais tarde, ao se libertar do uso comercial, quando mapas, cartazes, ilustrações, marcas, rótulos passam a ser impressos por outros meios, a gravura completa seu processo de desfuncionalização, ganhando autonomia. A autonomia da gravura vai assegurar a ela a possibilidade de dialogar com outras linguagens, se realizando plenamente como linguagem.

texto: http://www.anpap.org.br/anais/2007/2007/artigos/153.pdf

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