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JACQUELINE ARONIS – Gravura

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“DESDE A INVENÇÃO DA PRENSA ATÉ O ADVENTO DA POP ART a gravura teve um papel importante na divulgação não apenas da literatura mas também de obras de arte, popularizando-as e expandindo as possibilidades de acesso e consumo de imagens. A tradição no uso da prensa para criar e produzir trabalhos de arte possibilitou a artistas do século XX o uso de uma variedade de técnicas e um amplo universo de escolhas. No entanto, talvez em decorrência da ganância tout court do mercado de arte e de certo snobismo da crítica, dos curadores e colecionadores, a gravura foi sempre tomada como uma prática menor, uma expressão paralela dos grandes mestres da Modernidade, apesar das magníficas realizações de artistas como Picasso, Miró e Beckmann entre tantos outros.

OS ARTISTAS DA POP ART DESCOBRIRAM NA GRAVURA não apenas uma técnica conveniente, mas um meio que realçava o sentido simbólico de seus trabalhos, produzindo múltiplos ajustamentos ao ideário do movimento e determinando o estilo de representação que lhe é característico. Embora distantes dos buris e goivas – instrumentos que privilegiam a mão, o gesto e a emoção no ato de gravar – os pops se concentraram nas técnicas industriais de reprodução (litografia, off-set, silk-screen) como forma de desacreditar a presença do humano no trabalho de arte e criar a natureza introvertida do Expressionismo Abstrato que os precedia no tempo. Contemplando o ambiente ao seu redor, orientado pela economia de larga escala e pela ideologia do consumo, os pops emprestaram dos out-doors, dos rótulos, das revistas, da propaganda, da comunicação visual e tema para seus trabalhos, explicitando a soberania dos industrializados e das representações geradas pelo mass-media. Os meios industriais de reprodução utilizados por eles asseguraram uma extraordinária coerência entre os métodos e objetivo, confirmando sua direta conexão com o grau de industrialização da sociedade de onde eles emergiam. De um lado, criaram objetivos de arte que espelhavam a produção de não-objetos de arte pela sociedade. De outro lado, o modo de produção definiu o caráter essencial de uma era onde, embora banal em sua aparência, este mesmo objeto foi elevado a categoria de um artefato estético.

NO ESTEIO DESTAS TRANSFORMAÇÕES, a noção de gravura como meio expressivo, como linguagem, como conceito e, sobretudo, como modo de reprodução de imagens, foi resgatada e instalada novamente no território das práticas artísticas contemporâneas, associada ou não aos processos manuais, industriais e tecnológicos. No Brasil, entretanto, a gravura tem outra historia. Ela tem sido fundamental na criação e sustentação na criação do circuito artístico local se não quisermos lembrar de que toda Historia da Arte que aprendemos foi através de reproduções em livros e slides. Desde os modernistas muitas escolas e núcleos de formação de artistas se criaram em torno de ateliers de gravura ou gravura ou contaram coma participação de gravadores, configurando um território especifico e com tradição própria, ao contrário de outras linguagens que reivindicam sua filiação à arte internacional. Como observou Tadeu Chiarelle no catálogo A Gravura Paulista(1995), “a gravura em suas modalidades mais convencionais (…) conta muito. … Pode-se dizer que um dos núcleos mais vitais da arte brasileira recente encontra-se justamente neste território, sobretudo, no território da jovem gravura paulista. … (ela) continua investindo na imagem autoral, na subjetividade, nos procedimentos centenários dos vários modos de gravar uma matriz e, na produção de alguns gravadores – pasmem!-, na negação do próprio caráter de reprodução da imagem gravada, tido como inerente à gravura que eles tanto prezam”.

AS GRAVURAS DE JACQUELINE ARONIS inscrevem-se neste quadro de negação da reprodutibilidade e seriação da imagem gravada. Mais: constituem-se numa estratégia estético-ideológica, contraria aos processos de popularização da imagem para afirmar o sujeito, o artista criador em sua viagem solitária e em desencantamento com o mundo, onde o trabalho se configura como um esforço de transposição para outros espaços, outras paisagens, buscando significado e transcendência para seu gesto, para a sua existência. E ainda que o embate do trabalho com o rela se desfaça de qualquer ilusão ou romantismo quanto as possibilidades de interferência e alteração do mundo, ele, em sua singularidade, propõe uma viagem pelo imaginário como possibilidade de alguma subjetividade, de emergência de um eu afirmativo da vida.

PRODUZIDOS COMO PEÇAS UNICAS, mesmo que algumas vezes utilizando uma mesma matriz, os trabalhos de Aronis articulam-se como uma pesquisa em torno da construção de imagens e de objetos. Imagens que podem ser vistas como um Atlas fabuloso, interpretações de cartas celestes, captações de luzes de estrelas caídas, paisagens sonhadas e nunca alcançadas. Fixadas sobre papel artesanal, elaborando a partir da reciclagem de fibras e de livros naturais já usados e gastos pelo tempo, elas se corporificam como palimpsestos de uma intensa vivencia da matéria, da informação e da memória.

ENTRETANTO, AO LADO DAS METÁFORAS que o trabalho constrói, afirma-se uma investigação sobre as possibilidades do meio expressivo. As vezes, gestos diretos, pulsionais, sobre a placa; outras, exercícios de contensão e disciplina; ou ainda, procedimentos e memórias emprestados de outras linguagens. Usando monotipias, pontas secas e águas-tintas impressas sobre papeis texturados, feitos para cada uma das imagens, o trabalho recorre a todas as qualidades manuais, imaginativas e emotivas. Mas em paralelo à investigação formal evidencia-se a grandeza e o idealismo do sentido da arte para Aronis: dentro de uma sensibilidade neo-romântica, seu trabalho participa, alem do compromisso com a especificidade da linguagem, de um programa onde o oficio é o meio de construção de um sentido ético para ele. Sua estratégia revela que a verdade que a artista busca não reside na literalidade das coisas que representa, mas no recolhimento da imaginação e da sua prática como meio para criar, nomear e acreditar em verdades artísticas.”

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