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A Impressão e a Gravura

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A ORIGEM DA ESCRITA IMPRESSA
Criada pelos antigos povos iraquianos, a escrita sofreu alterações para acompanhar as necessidades das gerações posteriores. Revolucionada com a criação da prensa de Gutemberg, no ano de 1454, data aproximada da primeira impressão da Bíblia:
[…] mudou completamente a face do mundo. Suas matrizes de aço permitiram expandir o uso dos tipos móveis o que multiplicou de maneira incalculável a impressão de livros. Gutenberg produziu a Biblia de 42 linhas em três anos de intenso trabalho provando ser um engenheiro habilidoso, além de possuir grande senso estético. No final do século XV havia na europa germânica mais de 20 casas impressoras que publicavam milhares de livros gravados em madeira. A primeira Bíblia foi diagramada com 42 linhas e duas colunas de texto para economiar espaço e papel, daí seu nome. Sua aparência copiava os textos manuscritos com inserções de de capitulares trabalhadas em cores (Centro virtual de documentação e referência Oswaldo Goeldi)
A partir da descoberta deste meio de divulgação em massa, Alemanha, Itália e França lançaram suas primeiras publicações em larga escala.
Entre os séculos XIV e XV, A calcogravura, termo utilizado para designar a técnica em gravura que utiliza uma chapa de metal em geral de cobre, para produção da matriz, que submetida a uma prensa, imprime a imagem invertida no papel; e a xilogravura, feita a partir do desenho esculpido em uma superfície de madeira que, ao ser entintado é transferido para o papel por meio de uma prensa, ou colher de madeira, passaram a serem utilizadas na definição das imagens que ilustravam os primeiros livros, o que contribuiu para fazer reconhecer os artistas que até então viviam no anonimato.
A técnica de gravura em metal, porém, suplantou as produções feitas a partir da madeira. O buril, imagem gravada sobre uma chapa de metal ; a água forte, onde a imagem é fixada sobre chapa metálica mediante corrosão de ácido, resultando na estampa;e a água-tinta, constituída pela corrosão de áreas, com intenção de obter áreas tonais diferenciadas, constituem seus métodos mais usuais.
Francisco Goya (1746-1828), pintor e gravador espanhol, desenvolve maior parte de seu trabalho utilizando de meios graficos para denunciar, de maneira crítica, o irresponsável uso de poder pelos nobres de sua época. Goya também desenvolveu uma série de imagens tratando dos absurdos promovidos pela Igreja.
Posterior ao século XV, mais precisamente entre os anos de 1520 e 1800, a preferência gráfica a partir dos processos da técnica em metal fez com que,
[…] o interesse pela xilogravura entrasse em declínio, no entanto, alguns pintores ainda se dedicavam ao ofício de xilógrafos seguindo a influência marcante de Albrech Dürer. Pouco a pouco, a gravura em metal começa a assumir um papel cada vez mais proeminente deixando pouco espaço para a xilo como arte autônoma, obrigando-a a tornar-se um meio puramente reprodutivoa serviço de grandes artesãos, os quais eram capazes de reproduzir com exatidão absoluta a técnica do bico de pena. As xilogravuras passaram a imitar a pintura, o desenho  a aquarela além de interpretarem murais e esculturas […] (Centro virtual de documentação e referência Oswaldo Goeldi)
O renascimento da xilogravura só vai acontecer novamente com Paul Gauguin (1848-1903), e Edward Munch (1863-1944). O artista norueguês Munch,
[…] trabalhando sozinho, eleveou o progresso de impressão manual a ma forma de arte. A seleção da madeira e a exploração visual dos seus meios faziam parte do seu processo criativo. Fazendo inúmeras provas em diferentes cores, Munch realizou um trabalho raro para a época e, mais do que auqlquer outro artista do seu tempo, conseguiu retirar a xilogravura das suas restrições técnicas resgatando esta antiga forma deatingiu seu ponto de maior virtual de documentação e referência Oswaldo Goeldi)
A xilogravura foi desenvolvida, desde o início, carregando dupla responsabilidade, ou seja, desenvolver um papel “político e estético”. Assim chega ao século XX, período de grandes transformações nas artes plásticas.
Na América Latina do século XVIII e XIX, a xilogravura foi influenciada pelas produções artísticas de origem européia, que ali se estabeleceram. Jose Guadalupe Posada (1852-1913), José Clemente Orozco (1883-1949), e Diego Rivera (1886-1957), estão entre os gravadores espanhóis destacados.
No Brasil do século XIX e XX, período em que está compreendida a Arte Moderna, a xilogravura,
[…] atingiu seu ponto de maior ressonância e amplitude quando as obras conseguiram uma síntese entre os postulados internacionais e os aspectos específicos que formam a identidade cultural do Brasil. Não se trata de valorizar uma vertente artistica ou uma maneira específica de se pensar e produzir arte […] A produção artística moderna brasileira, fundada por diversas experiências, embasada pela miscigenação étnica do planeta […] (Costa, 1994, p:11).
O grupo de artistas brasileiros que produziram obras de destaque nesse período compõe-se de nomes como Oswaldo Goeldi (1895-1961) (figura 8), Lasar Segal (1891-1957), Axi Leskochek (1899-1976), Lívio Abramo (1903-1992). Em Porto Alegre, com a formação do Clube de Gravura, acrescenta à lista anterior os nomes de Vasco Prado (1914-1998), Carlos Scliar (1920-2001) , Gilvan Samico (1928), Adir Botelho (1932), Newton Cavalcanti (1930), Maria Bonomi (1935), Roberto Magalhães (1940), Ciro Fernandes (1942), Ana Carolina Albernaz (1943), Ruben Grilo (1946), Eduardo Eloy (1955), Luise Weiss (1953), Marcos Varela (1951) e Fayga Ostrower (1920-2001).
A gravura brasileira, desde o início apresentava características de intensidade, muito presente na concepção da arte Expressionista, privilegiando temas como.
[…] o homem, o seu tempo, a sua luta, a sua vida. Por essa ligação política e com a literatura, a gravura sempre trabalhou com uma espécie de síntese entre a palavra e a imagem […] a gravura fala da gravura, fala da arte, mas não se envergonha de falar sobre seu país, sobre o homem, sobre a realidade. A gravura é a arte da luta (COSTA, 1994, p: 12)
Assim, com o intuito de estabelecer uma forma de expressão genuinamente brasileira, a partir do Modernismo, os esforços empreendidos por nossos gravadores resultaram, de acordo com Lontra Costa, 1994, em experimentações enriquecedoras para desenvolver uma forma de expressão desse sentimento nacional. Este novo olhar em direção a uma arte pura, garantiu considerável impulso rumo à percepção de uma identidade artística brasileira onde,
[…] os gravadores fiéis às suas tradições e as suas origens expressionistas criaram obras de grande qualidade estética, pautadas pelo rigor da técnica do desenho e permeadas pelo humanismo, retratando tanto valores universais quanto situações do cotidiano do trabalhador brasileiro. O objetivo era valorizar os aspectos nacionalistas, democratizar o acesso às infromações artísticas e conscientizar a população sobre os perigos de um mundo dominado por um sistema econômico que, em nome de uma suposta modernidade, mantinha dois terços da população do planeta na mais ampla miséria (COSTA, 1994, p.14)
Diferente do que ocorre nos dias de hoje, onde se verifica a crise dos processos tradicionais, numa apropriação de meios tecnológicos industriais. As reivindicações do período da Arte Moderna foram fundamentais às reformulações conceituais, no sentido de entender um pouco mais sobre a própria técnica da gravura, suas ações e resultantes enquanto linguagem autônoma, singular e independente, como a impressão.

Em meados dos anos 50, a gravura paulista contribui, de acordo com Lontra Costa,  1994, para sua projeção além da ilustração, ela passa a buscar uma integração com a arquitetura, com a ambientação, com o espaço de convívio. Nesta década, os experçmentos de Fayga Ostrower (1920-2001) (figura 3) extrapolam essas fronteiras em busca de um equilíbrio.
Nos anos 70, as pesquisas artísticas são direcionadas para a busca de suportes não tradicionais, em uma propensão às experimentações que podem ser observadas nas ações diferenciadas entre a arte produzida no eixo Rio-São Paulo em que,
[…] uma gravura paulista de caráter mais intimista, com maiores preocupações técnicas, e uma carioca mais voltada para experimentação e a destruição do suporte, é importante analisar que limites geográficos são muito imprecisos […] não se trata de impor uma vertente […] não se trata de valorizar ou preterir técnicas ou conceitos. Não exite arte sem conceito, não existe arte sem ação. No conturbado final desse século a arte não é barreira, ela é ponte a unir situações complementares […] (COSTA, 1994, p: 16)
A lacuna instituída na história da gravura dificultou conhecimentos teóricos para a sustentação de pensamentos sobre o signo, traço, imagem, semelhança e genealogia. Hoje, na arte do século XXI, a ambiguidade dos gestos técnicos da impressão questiona a origem e/ou a perda da origem, autenticidade da presença e/ou a perda da unicidade, único e/ou disseminado, semelhante e/ou dessemelhante, identidade e/ou identificável, decisão e/ou acaso, desejo e/ou morte, forma e/ou disforme, o mesmo e/ou o outro, o familiar e/ou o estranho, o contato e/ou a distância.

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