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Matisse: O Preto é uma Cor

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Há livros e escritos essenciais, para não dizer imprescindíveis. Matisse: Escritos e reflexões sobre arte, publicado em 2008 pela Cosac Naify, é um deles. Transcrevo aqui uma única página do livro de quase quatrocentas, sobre a cor preta: O Preto é Uma Cor.
O uso do preto como cor, da mesma maneira que as outras cores, amarelo, azul ou vermelho, não é uma novidade.
Os orientais usaram o preto como cor, notadamente os japoneses nas gravuras. Mais próximo a nós, lembro certo quadro de Manet em que o casaco de veludo preto do jovem com chapéu de palha é de um preto franco e luminoso.
No retrato de Zacharia Astruc, de Manet, outro casaco de veludo expresso por um preto franco e luminoso. Meu painel dos Marroquinos [abaixo] não tem um grande preto, tão luminoso quanto as outras cores do quadro? (Derrière le Miroir, n. 1, dez. 1946.)
O mesmo número de Derrière publicou, além desta nota, os seguintes comentários: “Antes, quando eu não sabia que cor usar, punha preto. O preto é uma força: jogo meu lastro no preto para simplificar a construção. Agora deixo os pretos” (dez. 1945). E também: “Como toda evolução, a do preto na pintura se fez aos solavancos. Mas desde os impressionistas parece tratar-se de um progresso contínuo, de uma participação cada vez maior na orquestração colorida, comparável à do contrabaixo que chegou a fazer solos” (relatado por Aimé Maeght). Outro comentário de Matisse, agora a Picasso: “Perto do final da Primeira Guerra, eu estava passando um período no sul. Renoir estava muito idoso; como eu o admirava muito, fui visitá-lo em sua casa de Cagnes, Les Collettes. Ele me recebeu cordialmente e eu lhe apresentei algumas telas minhas, para saber sua opinião. Ele as olhou com um ar um tanto desaprovador. Depois disse: ‘Na verdade, não gosto do que você faz. Quase gostaria de dizer que você não é um bom pintor, ou até que você é um péssimo pintor. Mas uma coisa me impede; quando você coloca um preto na tela, ele fica em seu plano. Durante toda a minha vida, achei que não poderia usá-lo sem romper a unidade cromática da superfície. É uma cor que bani da minha paleta. Já você, utilizando um vocabulário colorido, introduz o preto e fica bem. Então, apesar do que sinto, creio que você é seguramente um pintor” (relatado por Françoise Gilot in Vitre avec Picasso. Paris: Calmann-Lévy, 1965). Comentário confirmado por George Besson, que atribui a Renoir o seguinte comentário sobre as telas que Matisse lhe apresentou: “Como você soube exprimir a atmosfera de um quarto de hotel em Nice! Mas esse azul do mar devia vir de frente… E essa barra preta de onde pendem cortinas brancas. Ela está em seu devido lugar. Está tudo certo. Era difícil… Até me dá raiva…” (cit. in Escholier, 1956).
Matisse – Os Marroquinos
“Meu quadro Os marroquinos [Les Marocains] – tenho dificuldade em descrever essa pintura em palavras. Ele representa o começo de minha expressão por meio da cor, dos pretos e seus contrastes. São figuras de marroquinos estendidos num terraço, com melancias e melões bravos.”

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