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O Mercado de Gravuras

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“O que eu adoro em lidar com impressões é que você não precisa fazer concessões – você pode comprar história da arte básica” diz Armin Kunz, diretora de Nova York da venerável C.G. Boerner Gallery, que  negocia impressões dos grandes mestres, do século XIX, e dos modernistas. “Poucas pessoas podem comprar um Rembrandt ou um Dürer. Mas se você comprar Três Cruzes, uma gravura de 1653, “você terá um de seus trabalhos mais famosos”. Uma impressão da gravura, das quais 80 são conhecidas, foi vendida no mercado privado por relatados $1.5 milhões. A Christie’s Londres vendeu uma e dezembro de 2006 por £467,200, ou um pouco mais do que $923,000.

O mercado de impressões de grandes mestres conhecidos é pequeno, mas não pela falta de procura. “É totalmente dependente da escassez de oferta”, diz Kunz. “Quem quer que tenha a oferta está por cima. O maior desafio não está na venda; é conseguir o material em consignação para a venda”.

Gravuras são os títulos, não os estoques, do mercado de arte. Seu preço sobe com o tempo, mas com apenas algumas exceções, não costuma variar muito. Até no atual mercado flutuante, há poucos sinais de uma bolha emergente de impressões, dizem os especialistas. “Você não pode achar que vai vender uma gravura com lucro 15 minutos depois que a comprou”, diz Alexandra Schwartz, a diretora da Pace Master Prints de Nova York. “Mas se você comprar a gravura certa, você consegue vendê-la se for paciente o bastante”. Enquanto é difícil fazer generalizações – com o tempo, muitas variáveis afetam os preços – gravuras de boa qualidade geralmente mantém seu valor, de acordo com Schwartz, e às vezes conseguem até preços muito melhores.

Tradicionalmente, gravuras apelam a novos compradores de arte com recursos limitados, assim como a colecionadores compromissados que estão procurando  uma gama de trabalhos de artistas renomados. Mas recentemente, com as melhores pinturas fisgando preços recordes, que as colocam fora do alcance de todos além de 0,1% do mercado, gravuras tem recebido outros olhares de uma escala maior de compradores. Colecionadores estão aprendendo que gravuras talvez sejam a melhor maneira de comprar imagens distintivas de artistas célebres,  e que muitos  devotam um esforço considerável em fazer importantes trabalhos muito desejáveis para meios impressos. Alem disso, no mundo de vendas on-line de arte, gravuras tem sido uma história de sucesso.

Preços de muitas categorias de impressões – particularmente aquelas feitas depois da Segunda Guerra Mundial e imagens icônicas de eras mais antigas – estão mostrando sua força nos leilões, ainda assim se mantendo relativamente acessíveis. Adam McCoy, o especialista sênior de gravuras na Christie’s Nova York caracteriza o mercado como robusto, acrescentando “No geral, o mercado de impressos contemporâneos teve o crescimento mais significativo,  de temporada a temporada”. McCoy aponta a força histórica de vendas de uma coleção, ou de um artista só, citando o exemplo do leilão em fevereiro do ano passado de 38 gravuras de Lucian Freud do arquivo de seu impressor, Magar Balakjan. Os preços foram de £10,000 – £145,250 ($15,700-228,000).

“Muitos colecionadores procuram o mercado de impressões para trabalhos que custam uma pequena fração do que teriam de pagar por uma pintura”, diz Mary Bartow, diretora do departamento de gravuras de Sotheby’s. Em 22 de maio, a Sotheby’s Londres vendeu um conjunto completo de 10 serigrafias de Mao de Andy Warhol, de 1972, por £1.6 milhões ($2.5 milhões), mais do que o triplo da estimativa máxima de £500,000 ($791,000) e um recorde para uma gravura ou conjunto de gravuras do artista. Duas semanas antes, a Chritie’s Nova York vendeu uma grande monotipia sem título (imagem 30 3/8 por 10 1/8 polegadas; papel 38 por 97 polegadas) de Jasper Johns, de 1938, em sua venda de pós-guerra, por quase $1.5 milhões contra uma estimativa de $600,000-$800,000. Uma monotipia é um trabalho único – essencialmente uma edição de um. Ainda assim, o preço é muito menos do que uma pintura de tal tamanho teria fisgado. Impressões assinadas de grandes edições de mestres como Johns, e mesmo Picasso, podem ser encontradas na faixa dos baixos cinco dígitos.

Até trabalhos instantaneamente reconhecíveis de um pai da arte moderna podem ser adquiridos por esse preço. Em seu escritório extra de Manhattan, com vista para a East 57th Street, Schwarts mostra um pequeno e colorido Cézanne, com seus banhistas, com suas características figuras fluidas do artistas e tom de azul. Esse trabalhos, Les baigneurs (petit planche), que até de perto tem o frescor de uma aquarela, é uma das 100 impressões da tiragem feita para o artista de 1896-97 pelo litógrafo mestre Auguste Clot, que no final do século XIX também trabalhava com Bonnard, Defas, e Vuillard. O preço? Apenas $35,000. Perto está pendurada uma água-tinta de Picasso, um retrato de Françoise Gilot, datado de 1947 e com o preço de $75,000. “É espontânea, cheia de luz, cheia de vida”, diz Schwartz.

Claro, nem todos os trabalhos deste último artista são acessíveis. Considere a venda, em novembro de 2011, na Christie’s Nova York do trabalho de Picasso La femme quipleure I, uma água-forte com água-tinta, ponta seca e raspador, executada em 1937. “Que tinha tudo – o artista certo, a imagem certa, e a escassez”, diz Schwartz. “É uma de suas melhor gravuras, e só há 15 cópias. Sua estimativa de $1.5 – $2 milhões. Foi um recorde de qualquer gravura vendida sozinha”.

Geralmente definidas como imagens feitas numa superfície que é entintada para a transferência em outra superfície, gravuras são feitas em tiragens, um conjunto de imagens idênticas ou “impressões”. As cópias são numeradas quando a edição é completa. Uma gravura de edição limitada indica que o artista não fará mais impressões, uma promessa geralmente assegurada fazendo um X em cima na matriz para impossibilitar impressões posteriores. Assim como em fotografia, o preço é determinado geralmente pela escassez: quanto menor a edição, maior seu valor aparente. O espectro de processos incluí  gravuras, xilogravura, água-forte, água-tinta, litografia, silkscreen, cortes em linóleo, impressões a jato de tinta de longa duração, entre outras.

A terminologia da gravura pode ser desafiadora, e até confusa para novatos, e não só diz do processo, mas do tipo de papel, do selo de impressão, e outros detalhes adicionais. Glossários e outras informações básicas podem ser encontradas nos sites do International Print Center e do International Fine Print Dealers Association, que realizará sua feira anual d0 dia 1o ao 4 de novembro no Park Avenue Armory em Nova York. Mas colecionadores não precisam saber os detalhes de cada processo. Não é como se todas as litografias sejam melhores que águas-fortes, e vice e versa. “Não há hierarquia de meios”, diz Bartow. Alem disso, negociantes às vezes usam o termo de forma imprecisa. “Usamos ‘impressão’; outros galeristas usam ‘litografia’ e assim por diante”, nota Schwartz.

Durante a era medieval, gravuras, especialmente xilogravura, tinham funções populares como a produção de cartas de jogo e imagens religiosas baratas. Impressões refinadas surgiram durante o Renascimento, com gravuras  de Antonio del Pollaiuolo (somente uma sobreviveu) e Mandrea Mantega na Itália, e Albrecht Dürer na Alemanha. Historiadores creditam o estabelecimento de gravuras como um objeto de arte autônomo ao trio de gravuras de 1513-14 de Dürer – Melencolia I [Melancolia I]; Knight, Death and the Devil [Caveleiro, A Morte e o Diabo]; e St. Jerome in his Study [São Gerônimo] . Atualmente, impressões de Rembrandt e Goya estão entre as mais procuradas.

Como em todos os meios, períodos históricos entram e saem de moda. Gravuras dos séculos XVII e XVIII, por exemplo, estão em baixa há algum tempo. Nesta última primavera, no entanto, Borener montou uma exposição admirada amplamente composta por gravuras dos séculos XVII e XVIII de membros da Academia Francesa na Pocket Utopia, o espaço em Bushwick, no Brooklyn, que reabriu no Lower East Side de Manhattan em colaboração com Boerner. Kunz diz que alguns galeristas e artistas contemporâneos, incluindo Richard Tuttle e Jack Tilton, gostaram dos trabalhos. “Agora nos tornamos grandes campeões do que chamo de ‘homens franceses de peruca’” diz Kunz. “Essas impressões eram muito procuradas em outros tempos”, mas a gravura mais cara da exposição custava $2,500.

David Tunick, um veterano especialista em fine print e desenhos, de Nova York , levou um público entusiasmado para uma exposição nesta última primavera e verão de quase 60 gravuras em metal do artista do século XVII Giovanni Benedetto Castiglione, suplementado com gravuras de seus contemporâneos e artistas que ele mais tarde influenciou, dentre ele Claude Piranesi e Tiepolo. “A maioria das pessoas se atrai pelo reconhecível, aquilo que chamo de ‘fator uau’”, diz Turnick, “e o século XVII não oferece isso para além de Rembrandt”. Mas há “tremendas oportunidades para colecionadores”, acrescenta, observando que o clima está mudando enquanto casas de leilão estão cada vez mais inclinadas a incluir impressões nas suas vendas noturnas mais “glamurosas” e mais colecionadores entenderam que a gravura foi uma prática tão importante quanto a pintura para certos artistas.

Gravuras do século XIX também são  párias do mercado no momento. Os preços subiram muito junto com pinturas impressionistas no auge das compras japonesas nos anos oitenta e começo dos noventa, e depois caíram com o mercado inteiro. Ainda não se recuperaram completamente. Algumas gravuras de Vuillard, Bonnard, e Toulouse-Lautrec hoje fisgam apenas alguns milhares de dólares. No começo do século xx, muitos expressionistas austríacos e alemães – Ernst Ludwig Kirchner, Käthe Kollowitz, Emil Nolde e Egon Schiele –eram também mestres gravuristas,  a agora seus trabalhos tem a mesma demanda que pinturas expressionistas.

Jane Kallir, diretora da Galerie St. Etienne, galeria muito respeitada de Nova York especializada em expressionismo, vê o mercado de gravuras expressionistas crescer não com a descoberta de talentos negligenciados – o campo já foi pesquisado profundamente, não há espaço para isso – mas com o reconhecimento de uma produção de mestres estabelecidos para alem dos trabalhos icônicos. Por exemplo, a Galerie St. Etienne possuí agora um dos trabalhos mais conhecidos de Max Beckmann, Self-Portrait in Bowler Hat, 1921, uma ponta seca que demanda um preço maior que $100,000. A galeria também tem uma outra ponta seca de Beckmann do mesmo ano, Merry-Go-Round, cujo preço é $12,000. “É tão satisfatória e rara quanto”, diz Kallir, mas a primeira gravura de tornou “canônica” através de sua reprodução freqüente; daí o grande desejo por ela. Kallir também aponta uma litografia revigorante, “fantástica”, e – sim – rara, de Kirchner, Two Girls Bathing (Decorative Study), 1911,  uma de apenas duas copias. É “contraintuitivo”, diz Kallir, ainda que possível, que uma gravura seja “rara demais” e portanto difícil de ser vendida.

Dada sua estética espontânea, única, e sua escala monumental, expressionistas abstratos em sua maioria ignoravam a gravura (gravuras de Robet Motherwell são a grande exceção à regra, vistas recentemente na Bernard Jacobson Gallery, em Londres). O final dos anos 50 e 60 presenciaram uma virada com a emergência da Pop Arte e do Minimalismo. Robert Raushenberg, Richard Hamilton, Johns, Warhol, Roy Lichtenstein, Sol LeWitt, Frank Stella, entre outros, injetaram uma nova energia nas artes gráficas. Novos ateliers de mestres da gravura surgiram, notavelmente o Universal Limited Art Editions, em Nova York; Marlborough Graphics, em Londres; Crown Ponti Press, em São Francisco; e Gemini G.E.L., em Los Angeles. Cinqüenta anos depois, essas imprensas cheias de história estão trabalhando com figuras como Tomma Abts, John Baldessari, Ellsworth Kelly, Richard Serra, Amy Sillman, Kiki Smith e Fred Wilson. No condado de Bucks, na Pensilvânia, a Durham Press, mais nova, produziu edições de Joe Amrhein, Polly Apfelbaum, Beatriz Milhazes, James Nares e Mickalene Thomas. Milhazes combina técnicas de silkscreen com xilogravura, no curso de muitos anos trabalhando com a Durham Press. Na James Cohan Gallery, de Nova York, impressões de Milhazes vendem por preços entre $40,000-70,000 dólares – mais ou menos o dobro do preço de 15 aos atrás – e suas pinturas por $1 milhão.

Cohan é co-fundador da VIP Art Fair, que estreou em 2011, e na primavera passada lançou a VIP Paper Fair, peso-pesado em termos de papel. VIP vive on-line, assim como os sites de venda  Artnet, Artspace , e  Paddle8, que direcionam consumidores on-line para as galerias participantes. Chris Vroom, co-fundador e diretor do Artspace, descreve impressões, fotografias, e outros múltiplos como “uma grande escada para colecionadores emergentes” e observa que suas primeiras aquisições incluíam litografias de Francis Bacon. Falando de todas as mídias, ele argumenta que o site, lançado em março de 2011, e agora chegando a quase um milhão de visitantes, “indiscutivelmente  amplia” o mercado providenciando educação e informação enquanto oferece colecionadores de todos os níveis a possibilidade de “comprar com apenas alguns cliques”.

Dentre as galerias de carne e osso especializadas em gravura contemporânea, talvez nenhuma tenha feito um uso mais vigoroso da web do que o galerista veterano de Seattle com 29 anos de carreira Greg Kucera. Citando o valor da “visibilidade e transparência”, Kucera tem um empregado de tempo integral devotado a administrar o site da própria galeria – onde todos os trabalhos estão ilustrados e precificados publicamente – e monitorar a apresentação dos trabalhos na galeria nos sites Artnet, Original Prints e, num futuro próximo, 1stdibs. Kucera, que fala com orgulho de relações longas com clientes, aceita relutantemente o anonimato que acompanha vendas on-line

Esse anonimato, de acordo com McCoy, da Christie’s, pode ser um estímulo para compradores. “Muitos de nossos compradores on-line são clientes novos”. “Porque podem participar do conforto de suas casas ou escritório, driblam a intimidação do processo de leilão. Além do mais, são informados pela grande quantidade de informações disponíveis”.

Colecionadores de gravura foram aconselhados a muito tempo a desenvolver “um olho” para comparar impressões e a assombrar exposições e salas de leilão. O tempo irá dizer o quanto informações na internet  se equipara com a experiência direta de um trabalho. De um jeito ou de outro, o futuro das gravuras parece bom. Muitos artistas contemporâneos abraçaram a gravura, atraídos pela oportunidade de experimentar com técnicas e trabalhar misturando disciplinas. A gravura tridimensional e outras técnicas do século XXI estão criando novas oportunidades. As gravuras que colecionadores compram hoje podem se tornar tão caras quanto as fine art prints feitas 600 anos atrás.

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