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Entrevista com Gilvan Samico

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Jornal do Commercio: Você se considera um artista reconhecido e bem remunerado entre seus conterrâneos?

Gilvan Samico: Acho que sou remunerado merecidamente. Reconhecimento acho que já existe há algum tempo, mas o fato de eu ver uma exposição como essa na terra em que nasci me deixa muito feliz. Acho que uma retrospectiva desse porte é como uma prestação de contas. Um saldo do meu trabalho até agora. Era um desejo meio bairrista…

Jornal do Commercio: Afinal, o pernambucano é bairrista?

Samico: O pernambucano, o baiano, o carioca. Pergunte a um carioca qual a cidade mais bonita do mundo. Ele vai dizer que é o Rio de Janeiro. Eu também acho o Rio uma cidade muito bonita, e nem sou de lá. Agora, se você me perguntar, vou dizer que o Recife é muito bonita também. Já foi mais, muito mais. Hoje a cidade está estraçalhada. A arquitetura moderna não soube se integrar aos nossos casarões antigos. Os novos prédios do Recife agridem a paisagem. A Rua da Aurora é um exemplo disso. Mas, apesar de tudo, ainda acho o Recife uma cidade bela.

Jornal do Commercio: No Rio, você trabalhou no escritório de design de Aloísio Magalhães. A comunicação visual influenciou ao seu trabalho?

Samico: Eu era um instrumento do escritório, um arte-finalista, não era o criador. Acho que já fui trabalhar lá porque sou, com o meu trabalho, por natureza, muito disciplinado. Claro que há coisas misteriosas na criação de uma artista e nem sempre a gente consegue dizer de onde vem a influência. Esses convites que são feitos de maneira sutil vão somando coisas na produção da gente, desde que se esteja receptivo, claro. O fato de eu ter trabalhado com Aloísio era porque ele precisava de um desenhista com o traço preciso, justo, com bom acabamento. Acho que deu uma contribuição para meu trabalho, mas eu, por mim mesmo, já tinha esse sentido de ser muito cuidadoso com a finalização e acabamento do que fazia.

Jornal do Commercio: Suas gravuras têm essa característica. São feitas com uma habilidade técnica muito apurada…

Samico: Habilidoso? Não gosto dessa palavra, “habilidoso”. Tenho receio de usá-la. Fica parecendo que a pessoa domina apenas a técnica, que não é uma artista completo.

Jornal do Commercio: Com essa recusa do termo “habilidoso” você quer dizer que a técnica bem apurada não é a parte mais importante de seu trabalho?

Samico: Uma gravura minha não acontece por acaso. Trabalho muito antes de definir a composição. Não existe essa coisa de inspiração. Nunca achei uma musa (risos). Faço 10, até 15 estudos. Não é fácil. São pequenas coisas que vão mudando. Não é um trabalho 100% racional, nem 100% espontâneo. Mistura o inconsciente e o consciente, é um acordo entre os dois.

Jornal do Commercio: Em quê você pensa quando está criando, quais são seus objetivos?

Samico: Construir projeto para uma gravura. Os elementos podem nascer de pequenas coisas. Penso num elemento, que vai dar origem a todo o resto. Depois, surgem as peças que serão colocadas no entorno desse elemento, que gerou todo o projeto da composição.

Jornal do Commercio: Qual sua fonte de pesquisa?

Samico: Essa história longa. Mas onde busquei minha fonte maior de pesquisa foi no cordel – mais nas histórias do que nas gravuras das capas, diga-se. O que me interessa são as lendas, as narrativas contadas, não queria reproduzir a estética dos gravadores populares, porque eu não sou um artista popular. Mas não fui para o cordel sozinho. Isso faz parte das minhas conversas com meu amigo Ariano Suassuna, no início da década de 60. Na época, eu dizia que não estava satisfeito com os rumos que minha gravura estava tomando. Achava que ela estava ficando muito parecida com as gravuras de fora. Então, foi Ariano que me chamou a atenção para esse universo popular. Ao mesmo tempo fiquei fascinado e medroso. Como é que eu ia lidar com isso? Meu maior desafio foi saber como trabalhar com essa linguagem. E foi aí que surgiu minha linguagem.

Jornal do Commercio: Num dos ensaios do catálogo, Fernando Morais afirma que você tem medo de perder a identidade? Por quê?

Samico: Medo de derrapar. Não sou experimentalista. Tenho linguagem conquistada com esforço muito grande. Tenho medo de receber influências que modifiquem minha arte.

Jornal do Commercio: Você se dedica a obtenção de bons resultados nos dois aspectos de seu trabalho: conteúdo e técnica…

Samico: Sim. A carga expressiva para mim é muito importante. E a técnica tem que ter qualidade, tem que ser bem feita. Mas não quero que o resultado da minha obra seja o “bonitinho”. A beleza de minhas gravuras está no todo da obra. Recuso o “bonitinho”.

Jornal do Commercio: Sua arte é sempre considerada meio mística, filosófica, religiosa. Que adjetivos você aplicaria ao seu trabalho?

Samico: É muito difícil. Claro que não se pode desligar uma coisa da outra: a intenção e o resultado. Há um caráter intencional nos desenhos que faço. Não diria filosofia, porque compreende mais outros aspectos do conhecimento humano. Mas, uso sempre o simbolismo do bem e do mal. Os contrastes das minhas gravuras expressam uma dicotomia, o claro e o escuro, o dia e a noite. Este é um elemento recorrente na minha obra.

Jornal do Commercio: Que outras características você atribui a sua obra?

Samico: Ela é otimista. Não pretendo fazer com ela nenhuma panfletagem. Há também uma certa religiosidade, não obrigatóriamente em alguma direção, mas elementos simbólicos religiosos e até pagãos. Os elementos que coloco na gravura – o peixe, a serpente – têm forte carga simbólica, embora eu nem queira saber o que significam. Tenho um livro de Jung, mas nunca abri. Não leio para não ficar influenciado.

O artista Gilvan Samico

Suas primeiras incursões no campo da arte foram no terreno pintura. As relações entre a arte de Gilvan Samico e a realidade brasileira são fáceis de perceber. É o Nordeste que o inspira, o Nordeste visto por meio das gravuras que ilustram os cancioneiros populares, acrescido da expressão erudita e do fantástico de sua imaginação poderosa e mórbida que mescla caboclos, santos, monstros, diabos e estranhas aves de rapina.

Os trabalhos de Gilvan Samico, selecionados pela curadoria para a mostra paralela de desenho e pintura, foram as últimas quinze gravuras realizadas pelo artista, produzidas entre 1983 e 1997.

Disposto a criar e lançar apenas uma gravura por ano, terá na exposição uma obra representante de cada ano. O universo pictórico de Samico remete às figuras primitivas, à cultura popular e especialmente ao imaginário do povo nordestino.

Lançado na cena plástica pernambucana pela Sociedade de Arte Moderna, nos anos 40, Gilvan Samico já correu o país com seus desenhos, pinturas e gravuras. Morou em São Paulo, no Rio de Janeiro e, na volta, meados de 1965, fixou-se definitivamente em Olinda.

“Samico fez a tradução plástica da quintessência do pensamento armorial”, filosofam os organizadores. Para eles, do trabalho do gravador recifense derivam imagens nítidas, ricas em sugestões simbólicas. “Surpreendem pela aparente simplicidade, pelo modo como a um só tempo fincam-se no chão agreste, para se elevarem e alimentarem nossa sensibilidade”, completam.

Depoimentos

Confira abaixo depoimentos de Gilvan Samico e Tânia Nogueira:

“Em 1957 fui para São Paulo estudar gravura com Lívio Abramo. Depois me mudei para o Rio de Janeiro e, lá, fiz algumas gravuras para participar de salões. Nessa época, em uma visita ao Recife, reencontrei Ariano Suassuna e disse a ele que achava que minha gravura parecia com coisas que eu já tinha visto, era muito noturna, muito ligada à gravura européia. . . Então, ele me perguntou: ‘Por que você não dá um mergulho na gravura popular?’ Eu enlouqueci. Senti como se fosse um desafio danado. Ia fazer o quê? Uma transposição da gravura popular? Não interessava. Fiquei um pouco aturdido, mas não desisti. Em vez de ir para a gravura pronta, ou a capa de folheto ou outra coisa qualquer, resolvi ir ao texto da literatura de cordel. Para fazer o que era para fazer mesmo: a gravura de ilustração. Aliás, a gravura nasceu para isso. Historicamente, ela sempre, ou quase sempre, teve esse papel: contar uma história. (…)

Goeldi gravava a linha branca. A maioria dos gravadores de cordel grava a linha preta. A partir de certo momento, começa a se evidenciar a linha preta em minhas gravuras. Você não está mais mergulhado na sombra. Você poderia encontrar essa gravura num cordel, se ele tivesse esse tipo de preocupação formal. Não encontra, porque quem fez fui eu. Tem crítico que diz que a matriz de minha obra é muito mais antiga do que o cordel. (…)

Tem gente aqui que pergunta qual é o meu encantamento pela arte egípcia, porque vê na minha gravura influências egípcias. Eu não tenho nada a dizer. A não ser que isso faz parte da minha vivência, do Inconsciente coletivo, sei lá. É como se fossem histórias antigas se repetindo nos genes até chegar a mim. Um crítico disse que a minha gravura hoje está impregnada dos símbolos essenciais da cultura popular. Acho que ele está certo”.

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